Segunda-feira, 16 de Março de 2009

DIANTE DO FIM


Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena pagar em dia o IPTU, se vale a pena ser patriota, se vale a pena assistir a novela das oito, se vale a pena abaixar o som para não incomodar o vizinho.

Diante do fim a gente fica pensando se vale a pena ver o noticiário em que nos dizem que a crise continua e que os políticos vão ser obrigados a nos arrochar um pouco mais para manter a soberania nacional.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena discutir com o homem da fruteira para pechinchar o preço, se vale a pena reclamar do colega de serviço que nos derrubou para ganhar um milésimo a mais em seu salário e que não foi suficiente para trazer para a sua mulher e filho um momento de dignidade e de orgulho, muito antes pelo contrário.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena se inscrever para o Big Brother para, com muita sorte acabar sendo repórter por um dia em uma feira-livre de jacarepaguá ou jogar na Mega-Sena e ser agraciado com um prêmio fantástico que é igual ao salário mensal do Ratinho ou do Silvio Santos.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena se ser bom por toda a nossa vida, por todo o segundo em que respiramos e para todas as pessoas que encontramos em nosso caminho e no final a nossa nota ser quase igual a do cara que “ferrou” com todo mundo o tempo todo e que nos últimos minutos resolveu ser bom ficando com uma média quase idêntica a nossa.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena acreditar em um Deus que teve apenas um filho único, quem sabe pela crise que faz com que tenhamos menos filhos para sustentar.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena ser bom em um mundo que só sabe reverenciar quem venceu, não importa como.
Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena estar vivo em um mundo em que pais estupram filhos e mães jogam seus fetos no lixo.

Diante do fim a gente começa a pensar se vale a pena achar que vale a pena tentar, pensar se realmente é possível mudar, acreditar que é possível tocar.

Diante do fim a gente começa a pensar se valeu a pena um dia ter sentido, de um dia ter sorrido, de um dia ter chorado.

Diante do fim a gente começa a pensar se valeu a pena um dia ter vivido.
(Para a minha esposa Marilene, a quem eu credito tudo o que valeu a pena em minha vida)

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

NÃO PRECISAMOS DO MISTER M


O integrante do maior partido político do país fez esses dias uma declaração bombástica dizendo que o seu partido e praticamente todos os integrantes dele são corruptos e que só querem cargos para fazer maracutaias. Foi o comentário da mídia e das pessoas até o pôr do sol do dia do pronunciamento. Depois morreu o assunto.

Numa tentativa quase bocejante e com muita má vontade de tentar reverter ou diminuir a declaração do colega, um grande líder do mesmo partido complementa dizendo que eles não são menos corruptos que integrantes de outros grandes partidos. Ele disse, em outras palavras: “não somos os únicos que roubam”.

Grandes revelações, grandes mentiras desvendadas, grandes verdades vindo à tona só interessam se forem sobre as preferências sexuais do participante sem cérebro do Big Brother ou da milésima operação plástica da dançarina do programa infantil.

Ninguém está disposto a ouvir verdades um pouco antes da novela das oito, depois de um dia exaustivo ou principalmente uma semana antes do carnaval. Muito menos estão dispostos a ouvir verdades aqueles que realmente têm por obrigação apurar as coisas e encarar a briga quando essas verdades são expostas.

O que nós esperamos deste país? Acredito que muitos esperam (depois de todos os desejos individuais saciados, é lógico!) a chegada de homens de boa vontade que tenham coragem de denunciar, de tocar na ferida, de mostrar os podres do país e que estivessem dispostos a dar início a um processo de moralização nacional.

De tempos em tempos aparecem homens como esses que acabam causando, ao invés de admiração por sua coragem e iniciativa, repulsa e estranheza em todos nós. São como o Mister M que mostra o segredo do truque que nos aplicam e acaba sendo execrado pelos seus pares, pelos mágicos, pelos enganadores, pelos ilusionistas que querem continuar enganando e mamando por séculos sem ter que criar novos truques e até pelo público que prefere a ilusão do que a verdade.

Nós precisamos do show. Queremos a mágica. Sonhamos com o espetáculo. Não queremos Misters Ms nos revelando os truques e nos deixando órfãos das soluções mágicas para os nossos problemas. Nós precisamos das presenças divinas dos escolhidos por Deus e apenas referendados por nós nas urnas, dos quatro poderes celestiais e da capacidade de fazer sumir diante dos nossos olhos pontes, rodovias e hospitais e de serrar um trabalhador ao meio e logo depois fazê-lo surgir não mais inteiro e sim partido para que produza em dobro, processo que somos submetidos desde o nascimento dos nossos ancestrais.

Vamos deixar para lá esse assunto porque já está começando a novela e logo depois vem o futebol.
(Sérgio Lisboa)








Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

O VALDIR DO IAPI



O Valdir sempre foi um cara muito feio. Muito feio não é a definição adequada. A comparação mais perfeita para descrevê-lo era um cara com o corpo do corcunda de Notre Dame e a cara do Chucky, “O Brinquedo Assassino”. Ele não era o corcunda de Notre Dame completo com corpo e a cara porque a cara do corcunda de Notre Dame até que era bonitinha. Além do mais ele tinha uns olhos claros iguais aos do Chucky. Ele era muito feio. Ele já era feio quando estava arrumado para uma festa, imaginem como ele era no dia-a-dia despreocupado com a aparência.
Aliás, ele arrumado para uma festa era uma...uma..festa. Os sapatos eram sempre o mesmo par, três números menores do que o pé dele, sapato que achara um dia em uma esquina, junto a um despacho com galos pretos, velas, cachaça e umas moedas.
Ele se apaixonou tanto pelo sapato que naquele mesmo dia usou as moedas do despacho para pagar um engraxate e comemorou o seu achado bebendo uma garrafa de cachaça com o mesmo engraxate. As velas do despacho ele guardou para encerar o sapato quando tivesse que usá-lo.
A ponta do sapato, por ser bem apertado, ficava dobrada para cima, o que pelo menos facilitava para o Valdir quando ele dançava sozinho no salão girando nas pontas do sapato numa dança frenética, mais louca que Elvis Presley ou Michael Jackson, não importando o ritmo da música. Podia ser um samba ou uma valsa que o Valdir dançava sempre no ritmo alucinado do rock and roll.
A camisa que ele usava para ir à festa era a mesma camiseta surrada de futebol que ele usara a tarde inteira jogando pelada no campo. A calça também. Sim, a calça. O Valdir nunca usava calções para jogar futebol. Jogava sempre de calça.
Achar o Valdir no baile não era muito difícil, bastava procurar pelo corcunda de Notre Dame, com a cara do Chuky, com a ponta dos sapatos virada para cima e vestido de centro-avante.
O Valdir era um grande personagem que jogava futebol no campo do Alim Pedro, no IAPI. Vocês devem estar pensando que ele usava os mesmos sapatos para jogar futebol? Não, nada disso! O Valdir jogava futebol de pés descalços. Nas pontas de cada dedão tinha umas unhas pontudas que mais pareciam uns sabres. Eu sempre quis saber como aquelas unhas duras e compridas conseguiam se dobrar para acompanhar o formato do sapato. Cada vez que o Valdir ia dar um chute na bola todos temiam, não pela potência do chute, mas sim com medo dele acabar com o jogo, furando a bola com aquelas unhas. Felizmente isso nunca aconteceu, até mesmo porque o Valdir dava uns efeitos na bola nunca vistos, batendo sempre com o lado do pé. Ele não era bobo. Não iria querer acabar com o jogo.
Uma das coisas que mais me chamava atenção na personalidade do Valdir era a sua capacidade de se divertir jogando futebol. Todo lance que não dava certo para o adversário ou para o seu próprio time arrancava gargalhadas dele. Até mesmo quando dava um drible desconcertante no adversário, ao invés de continuar a jogada e marcar o gol, ele se jogava no chão com as mãos na barriga e rolava de rir do drible que realizara. Era isso que importava: rir e se divertir.
Podia ter o corpo do corcunda, a cara do Chucky, os sapatos tortos, as unhas compridas, mas ele ria e se divertia com tanto prazer que causaria inveja a qualquer galã de cinema com suas belezas, manicures e roupas maravilhosas. Fazer as coisas com alegria e por diversão é mais importante do que fazer por resultados. Mesmo porque o resultado final que todos nós queremos depois de trabalhar, depois de conquistar, depois de ganhar dinheiro é ter alegria e diversão.
O Valdir apenas atalhava o caminho e convivia o tempo todo com a alegria.

Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009



O MAGRÃO DO IAPI
(Sérgio Lisboa)
Eu nasci e cresci em Porto Alegre. Sempre no Bairro IAPI. Um bairro construído para trabalhadores, no caso, os industriários. Foi o primeiro conjunto habitacional do Brasil. Até hoje - ele que foi tombado - mantém praticamente as mesmas construções da década de quarenta. Foi o bairro onde cresceu também a grande Elis Regina.

O IAPI era um bairro de roqueiros, grandes cabeças criativas e, lógico um bairro onde a maconha tinha um lugar de honra. Tudo numa boa e pela paz e o amor. Enquanto isso os Estados unidos invadiam o Vietnan e os militares tomavam o poder.
A grande maioria dos seus moradores passou a ser de funcionários públicos. Um bairro ótimo de se morar. A metade da população com a tranqüilidade de um funcionário público e a outra metade completamente zen, curtindo os efeitos da canabis.

Meu pai e minha mãe eram funcionários públicos federais. Herdei deles o gene da estabilidade e da calma ao iniciar uma tarefa. Herdei deles, principalmente o gene de nunca pegar o que não é meu. Considerando que, se fosse também um funcionário público - o que acabei me tornando - o emprego estaria sempre garantido. Eles me ensinaram que com um emprego estável me restava apenas garantir um bom sono e uma boa consciência através da honestidade.

O IAPI tinha muitas figuras. Uma delas era o Magrão. Descrever o Magrão fica muito mais fácil se eu disser para vocês que ele era a cópia fiel do Azambuja, aquele personagem do Chico Anísio. Aquele personagem muito malandro que está sempre tramando uma jogada. Não é o Justo Veríssimo, o político, embora sejam muito semelhantes.
O Magrão era o Rei do 171. Não tinha para ninguém.
Ele tinha uma jogada que sempre funcionava e que tenho que admitir era ótima. Obviamente, ele com seus trambiques, tinha atrás de si muitos credores e gente querendo encontrá-lo para reaver seus “investimentos”.
Quando o inevitável acontecia e ele cruzava com algum credor numa esquina, principalmente em uma esquina do centro da cidade, lotada de pessoas, quando, para qualquer mortal era o momento mais temido de suas vidas, ele pulava na frente e já gritava: “Qual é a sua? Estive lhe procurando a semana inteira para pagar o que devo e nunca encontro!! Assim você atrapalha a minha vida!”
O credor espantado com aquela atitude e envergonhado com aquela situação vexatória diante de milhares de testemunhas, baixa a cabeça, baixa o tom de voz e pedindo desculpas diz que estará esperando o pagamento dele da próxima vez.

O Magrão era uma figura. Ás vezes eu penso que ele fez escola, principalmente com o Governo quando vêm para cima de nós, pobres contribuintes fisgados e confiscados, alegando que a culpa é toda nossa por qualquer crise que passamos e que viermos a passar, quando enriquece cada vez mais a si e a sua prole por gerações e, ainda assim consegue que nós baixemos a cabeça, o tom de voz e aceitemos uma redução de salário para ajudar a enfrentar a crise (ele não repartiu a lagosta quando o mercado estava em alta).

Eu tenho muitas histórias mais do Bairro IAPI que pretendo contar e acho que aprendi muito com todas aquelas figuras e, um pouco graças a elas, passei a entender melhor o que se passa diante de todos nós nos tempos atuais quando relembro daqueles personagens.
Vai ver que foi o aquele ar enfumaçado que me fez minha cabeça raciocinar ao contrário.

Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

CABEÇA NAS NUVENS



(Sérgio Lisboa)
A Rainha Maria Antonieta já tinha ficado eternamente famosa com a frase que demonstrava uma total falta de sintonia com as mazelas de seu povo quando proferiu, ao receber a notícia de que o povo clamava por pão: ”Se não tem pão que comam bolo!”.

Qualquer mortal pode com um pouco de boa vontade fazer alguns cálculos e algumas pesquisas banais pela internet, mais fáceis do que acessar sites pornôs.
Digamos que a governadora e cinco secretários viajassem uma vez por mês para o exterior. Durante o seu mandato seriam quarenta e oito viagens para seis pessoas ao custo unitário de três mil reais (Porto Alegre - Londres custa três mil reais ida e volta), sendo dezoito mil reais multiplicado por quarenta e oito, totalizando hum milhão e quatrocentos mil reais por todo o mandato. Se comprar o seu avião por vinte e oito milhões de dólares, somando-se a manutenção, tripulação, gastos com mordomias, etc. gastará de cara o dinheiro de quarenta mandatos e mais um mandato por ano só de despesas com o avião.

Agora eu entendo porque os técnicos da Fazenda Estadual sempre que perguntados sobre o que acham desta compra, acabam se esquivando e dizendo que estão de saída. Aliás, o ex-Secretário da Fazenda de Yeda deixou esta bomba para o outro e recebeu convite para trabalhar no Banco Mundial, depois que fechou um empréstimo do Estado com este Banco com valores corrigidos em dólar.

Você pode dizer que a Governadora precisa de um corpo de seguranças. Precisa de um bom carro oficial. Precisa de um bom lugar para receber o povo e as autoridades. Precisa comer bem. Ter boas informações. Agora, defender que a Governadora precisa de um avião novo só seria aceitável se estivéssemos na Colômbia, Venezuela, Bolívia, Iraque, Rússia, etc., e assim mesmo se o governo tivesse sido tomado por narcotraficantes ou integrantes da máfia. Estando o funcionalismo ganhando um bom salário, a educação perfeita, a saúde sem problemas, a segurança sob controle e seus policiais ganhando um salário digno, não haveria motivo nenhum para sermos contra a aquisição de um aviãozinho para a governadora.

A crise mundial, os eternos problemas financeiros do Rio Grande do Sul somados aos cortes orçamentários drásticos feitos pela Governadora criam o mais desfavorável cenário possível para a aquisição de um equipamento tão caro quanto supérfluo.

A Governadora alega que foi repreendida pelo Presidente Lula por não ter um avião e que o Rio Grande é um dos únicos estados que não tem avião novo. Primeiro: o Presidente Lula sempre achará um absurdo quem não tiver uma forma de andar nas nuvens como ele. Segundo: o Rio Grande perdeu espaço político e econômico ao longo da história, mas sempre teve ao seu favor o fato de ser diferente pelas atitudes e posturas dignas dos princípios que regem a administração pública.

Estão chamando este avião da Governadora de “Queen Air’ (algo como o avião da Rainha). Eu acho uma verdadeira maldade chamar este avião da Governadora de “Queen Air”, pois é uma maldade com a Rainha da Inglaterra, até mesmo porque eu li que a dona do trono real inglês está com os pés no chão e, apavorada com a crise mundial, está procurando diminuir qualquer gasto que seja supérfluo.

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

O PRESIDENTE NA GELADEIRA




(Sérgio Lisboa)
O Presidente Lula criou um programa federal para subsidiar a venda de geladeiras a famílias de baixa renda. O objetivo é fazer com que as residências tenham eletrodomésticos antigos trocados por novos, o que resultaria em maior eficiência energética.

Acredito que a preocupação seja com o gasto de energia que é maior nesses aparelhos, além dos gases utilizados neles que prejudicam a camada de ozônio.

O Presidente nunca escondeu que era fã dos Mamonas Assassinas, principalmente naqueles versos “...a minha felicidade é um crediário nas Casas ...”

Será que é uma parceria com uma grande rede de lojas ou é concorrência desleal, mesmo?

Depois de criar o crédito “facilitado” para os aposentados, deixando-os sem condições de comprar um pirulito para os netos (literalmente foi mais fácil do que tirar o doce de uma criança), o ataque agora é no produto mais caro que o pobre pode adquirir e, consequentemente, se endividar.

Ele só não informou o que os pobres colocarão dentro das mesmas, uma vez que a maioria do povo brasileiro usa a geladeira como armário e para secar roupas na parte de trás.

Eu queria sugerir ao governo, que assim que for possível, crie um programa para subsidiar a compra de pau de macarrão, para moralizar os casais adúlteros e tentar conter a onda de separações matrimoniais que vem crescendo ultimamente.

Outra sugestão diz respeito a um programa para aquisição de cortinas plásticas de banheiro, para conter a alta absurda do preço do alumínio, utilizado na confecção de boxes, podendo esse programa ser em parceria com o Ministério da Pesca, pois as legítimas cortinas plásticas de banheiro tem desenhos de peixinhos.

Ainda com relação ao bolsa-geladeira, fontes do governo confirmaram que já está havendo uma pressão muito forte dos parlamentares, para que, em regime de urgência, seja também aprovado o bolsa-pingüim de geladeira, que sem eles estaria completamente descaracterizado todo o programa, criando uma verdadeira comoção popular e, segundo alguns ferindo até mesmo algumas cláusulas pétreas da Constituição Federal.

Apesar disso algumas entidades representativas não são favoráveis ao bolsa-geladeira pelo simples fato de que a oito anos já estão numa verdadeira fria.

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

A ALMA DA XUXA



(Sérgio Lisboa)
A apresentadora de televisão, Xuxa está movendo um processo contra um jornal semanal de uma igreja evangélica, que traz uma reportagem sobre um suposto pacto que ela teria feito com o diabo. O jornal diz que Xuxa teria vendido sua alma pela incrível quantia de cem milhões de dólares. Agora, a apresentadora pede uma indenização de três milhões de reais por danos morais. Ela parece disposta a infernizar a vida desta igreja.

O diabo (Ops!), digo o mais intrigante é o fato do valor ter sido de cem milhões de dólares que equivalem a duzentos e vinte milhões de reais e o pedido de indenização por dano moral tenha sido de somente três milhões de reais. O jornal teve uma tiragem de três milhões de unidades, o que significa que Xuxa está pedindo um real por cada pessoa que leu o impresso. Podemos deduzir com isso que cada um de nós que disser algo para a Xuxa que dê margem para uma reparação moral deve ter pelo menos um real em casa para a indenização.

Alguns especialistas advertem que está tendo uma confusão nas definições e que o que vale mesmo é o espírito e que a alma está em baixa no mercado. Existe inclusive uma tabela que determina os valores das formas do indivíduo como o corpo, a alma, o espírito, a mente e a moral. Tais definições variam de indivíduo para indivíduo de um lugar para outro. Tem uns que não tem moral nenhuma e vendem o corpo a qualquer preço. Outros aparecem nas repartições públicas só em espírito. Outros estão com suas mentes dominadas, com o corpo detonado e já venderam a alma e o espírito, quando então resolvem cantar Funk.

Talvez seja a grande salvação da apresentadora este pedido de indenização, uma vez que se a reparação moral custa só três milhões de reais a sua alma deve valer uns míseros trinta milhões de reais. Resta saber se o Diabo pagou superfaturado ou então algo está mal explicado.
A diabólica coerência desta história é o fato do Diabo pagar a alma em dólares, já dando uma pista de seu país de origem.

A Polícia Federal deveria abrir o sigilo bancário de Xuxa e rastrear para descobrir se esse dinheiro entrou mesmo em sua conta e qual conexão o Diabo teria utilizado para burlar o sistema financeiro internacional, apesar de que, mesmo que encontrem o tal depósito, não será nada fácil enquadrar a moça, visto que o dinheiro vindo do Diabo com certeza é um dinheiro muito quente.

O Banco Central deveria se pronunciar quanto às grandes movimentações financeiras oficiais, mesmo que não possa afirmar com certeza que algum dos depositantes seja o Diabo em pessoa, embora os que movimentam essas quantias tão elevadas certamente estão longe de serem anjos.
Dificuldades também enfrentarão os Oficiais de Justiça para a intimação do envolvido, no caso o Diabo, uma vez que ele não possui endereço fixo, pelo menos não sabido, e restando a eles apenas aguardar alguma possessão demoníaca de fato confirmada para que ele seja notificado da audiência. O mais próximo que podem chegar é de alguém que encontrarem por aí, possuído, mas a intimação poderá pegar fogo assim que a entidade a tocar.

Quanto a Xuxa, se for confirmada sua vitória judicial, deverá comemorar bebendo muitos capetas.

Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

BRIGAR COM O ASTRO DA ESCOLA



(Sérgio Lisboa)

Quantas vezes em nossas vidas já fomos confrontados e acabamos nos desentendendo com pessoas idolatradas em nosso meio - seja na escola, no trabalho ou no convívio social, por serem ricas, bonitas, atraentes, maniqueístas, empáticas, bajuladoras, corrompedoras, concentradoras, ditadoras, falsas sofredoras, dissimuladas, etc. Estas coisas acontecem com quem ousa discutir aquela “liderança” ou até mesmo pelo simples fato de não reverenciar aquele ser celestial o tempo todo.
Nestas horas parece que o mundo cai sobre as nossas cabeças. Todos olham com aquele olhar de quem se penaliza com a nossa condição de peça defeituosa na engrenagem do sistema perfeito ao mesmo tempo em que suspiram e passam a mudar este olhar para o de quem quer dizer que seria melhor para todos que você sumisse do mapa. Você procura olhando para todos os outros uma solidariedade para a sua postura que julga corajosa, heróica e necessária para retirar a catarata que não os deixa ver o quanto estão sendo manipulados, mas todos baixam ou desviam o olhar evitando conversar qualquer coisa que não seja a idéia de demovê-lo de sua posição.

A guerra na Faixa de Gaza é o exemplo mais clássico e em proporções gigantescas que evidenciam estas posturas. De um lado os ricos, os limpinhos, os dos retratos nas revistas, os mocinhos que vivem perseguidos, os que querem e sabem conversar civilizadamente e do outro lado os pobres, os sujos, os sem-rostos, os traiçoeiros e os que não tornam possível um diálogo amigável.
Esta guerra traz consigo uma disputa milenar e ainda envolve a religião com a marca do fanatismo, o que praticamente afasta todas as pessoas que de alguma forma poderiam intervir, pois é pouco compreensível e aceitável para quem não respira aquele ar e não vive aquela história.

Todos os comentaristas especializados, subjugados ou não, lamentam a inércia e a conivência estarrecedora da ONU, embora não seja inércia ou simples conivência e sim uma posição bem clara que é a de consentir calando. A ONU tem uma opinião bem sedimentada e reiterada através dos anos que é a de ser favorável ao astro da escola em desfavor do pobre menino que está estudando com bolsa-auxílio ou entrou na universidade através das cotas.

Não estou dizendo que o bom menino no episódio de Gaza não tem razão e que o menino sujo é que está certo. Apenas quero dizer que o bom menino sempre terá a razão e só estamos esperando que o mau menino crie juízo e deixe a engrenagem do sistema perfeito funcionar.

Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

SOMOS LIXO?






(Sérgio Lisboa)
Uma das questões mais básicas que sempre voltam aos debates mais polêmicos é sobre qual o exato momento em que começa a vida. Para o trabalhador brasileiro parece que ela não vai começar nunca, pelo menos dignamente. Nestes casos a posição oficial fica por conta da Biologia embora a Filosofia fique em volta, com um cálice de vinho, dando pitacos o tempo todo. E a Igreja com seus cálices e anéis, também. A Biologia, entre suas várias correntes define como mais aceita a hipótese de que a vida se inicia com a fecundação. Pronto. A fecundação. Aquele momento mágico que acontece alguns dias após o homem cair extasiado e abatido sobre o corpo suado e (nem sempre) satisfeito da mulher. A Igreja também concorda que é a partir daí que a vida começa bem como a existência da alma.

Outros dizem que a vida começa quando o ser humano reconhece a diferença entre si e os demais, ou seja, ao longo dos primeiros meses após o nascimento. Daí já é tarde e já estão com uma faca em nossas costas.

O Catolicismo desde o século IV condena o aborto em qualquer estágio e em qualquer circunstância, permanecendo até hoje como opinião e posição oficial da Igreja Católica. A Igreja considera que a alma é infundida no novo ser no momento da fecundação, proibindo o aborto em qualquer fase já que a alma passa a pertencer ao novo ser no momento preciso do encontro do óvulo com o espermatozóide. A punição para quem pratica o aborto é a mais pesada em vigor no catolicismo que é a excomunhão.

Por outro lado, numa decisão bem menos celestial, o Conselho Federal de Medicina através de uma Resolução Normativa no ano de 2000 determina que os fetos natimortos ou mesmo bebês que nasceram com vida e morrem no hospital, somente precisam atestado de óbito os que nascerem com vinte semanas, ou com quinhentos gramas ou com vinte e cinco centímetros de comprimento. Os demais são registrados junto às peças de patologia cirúrgicas, sem atestado.
São descartados junto às vesículas cancerosas, às gorduras lipo-aspiradas, às pernas amputadas e às gazes ensanguentadas.
Passam a ser lixo hospitalar.

Eu gostaria de saber onde fica a alma dos bebês que não se enquadram naqueles índices de tempo, peso e medida? As almas os abandonam, pois os mesmos não se ajustam a Resolução médica? E a Igreja, o que acha desta Resolução?

A notícia que chamou muito a atenção neste início de ano, depois dos banhos de mar do Presidente foi sobre a menina encontrada com vida pela faxineira do hospital em São Paulo, dada como morta e esperando para ser recolhida como lixo hospitalar, seguindo a Resolução do Conselho. A discussão agora, além do erro na constatação da morte, é sobre o fato de que houve erro também na classificação da menina como lixo, uma vez que ela tinha setecentos e cinquenta gramas, merecendo ser tratada como ser humano.

A faxineira que achou a menina e providenciou socorro não foi atendida no primeiro momento, pois os médicos não acreditaram nela. Faz pensar se outras faxineiras bem menos determinadas, em casos semelhantes, não desistiram na primeira chamada.

A menina foi registrada com o nome de Giovana Vida. Uma homenagem a vida e um alerta vivo sobre como ela é tratada.
Eu penso que será preciso explicar para a Giovana, desde logo, o porquê que para ser faxineira não é preciso diploma.

Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

VALORES ONLINE



(Sérgio Lisboa)
A internet é um instrumento ou ferramenta como qualquer outra, tanto quanto um bisturi, que salva vidas, também pode ser usado como arma nas mãos do Jack Estripador, ou uma foice que prepara o terreno para produzir alimentos também se transforma em uma arma mortal nas mãos de sem-terras.
A rede de computadores tem sido muito valiosa para a informação instantânea, novas amizades, novos negócios, estudos, lazer, etc., como também para uma série de atividades não tão positivas. Assim como é possível, sem sair de casa, visitar Museus pelo mundo (que programão!), comprar meias de lã baratas e encalhadas numa loja de varejos da Jamaica, descobrir um filho que você não sabia que tinha no Vietnã (fruto daquela única transa com a enfermeira americana nas férias no Rio nos anos sessenta); você também pode ter acesso a pornografia infantil, adquirir diplomas em qualquer área com fotos da formatura e com parentes chorando incluídos no pacote (o Photosharp é gratuito), comprar uma ogiva nuclear de quarenta megatons (suficiente, pelo menos, para todos no teu bairro passarem a te respeitar), além do mapa onde está escondido o Bin Laden, pela metade do preço da recompensa por ele.

A educação dos nossos filhos, como todos os segmentos de nossas vidas, foi alterada fortemente pelo advento da Web, tendo que levar em conta a rapidez das pesquisas, bem como o ritmo frenético das informações recebidas por eles, afetando diretamente a forma de comunicação e ensinamento transmitidos, tanto pelos pais quanto pelos professores.
Uma coisa que felizmente parece não mudar são os valores que podemos repassar aos nossos filhos (fora os créditos no celular, banco e cartão) como honestidade, amor, justiça, dedicação, generosidade (na manha!), etc. Talvez os maiores obstáculos que podemos encontrar para que esses valores fluam normalmente, ou melhor, que pelo menos sobrevivam (sem falar no Funk), são os jogos online que a Internet nos apresenta. Além de jogos em que você tem que matar o maior número de coleguinhas de classe no menor tempo, tem os de trânsito em que se atropela todo mundo, mas mulheres grávidas e deficientes valem mais pontos.

Um desses jogos que coloca em xeque toda a dedicação familiar, escolar, social, etc. se chama “ The Pimps”. A propaganda anuncia como um game online diferente de tudo que você já viu! Neste jogo você é um cafetão super barra-pesada e seu objetivo é gerenciar as suas prostitutas, eliminar os outros cafetões e aliciar as prostitutas deles. Eventualmente você também pode ganhar muito dinheiro sendo assassino de aluguel ou traficante de drogas, mas sem nunca deixar de tomar conta das suas "meninas". Você não joga contra o computador, você joga contra outros cafetões tão barra-pesada quanto você. Clique e entre para o mundo do crime e da prostituição!
Você pode e deve falar de valores para o seu filho, apenas terá que, eventualmente, esperar ele terminar joguinhos como este, pois pode acontecer bem na hora da conversa de só faltar um cafetão concorrente morrer, para ele conquistar a cidade inteira.

Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

O OTÁRIO PERFEITO



(Sérgio Lisboa)
Steve Jobs, fundador da Apple, Next e Pixar, ícones empresariais do mundo capitalista fez um discurso em 2005 na formatura da Universidade de Stanford, uma das mais conceituadas e caras do mundo, berço dos maiores líderes empresariais do planeta, vídeo este que, misteriosamente, voltou com força neste ano na internet.

Ele, com cinquenta e poucos anos poderia transmitir cinquenta e poucas lições que aprendeu em sua vida. Mas como uma das figuras mais ricas do planeta, além de ser uma das figuras mais inteligentes e criativas deste mesmo planeta, disse que não tinha lições para passar, apenas três histórias para contar. Antes disso, fez questão de frisar que estava como convidado especial na formatura mais cobiçada do mundo, mas que nunca havia se formado na vida e aquele momento era o mais próximo que já tinha chegado de uma formatura. Um dos homens mais ricos do mundo e um dos mais brilhantes (Aqui no Brasil um palestrante motivacional que não tiver quinze faculdades perde terreno em suas contratações).

A primeira história é sobre ligar os pontos, onde defende que você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa - sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca o decepcionou e tem feito toda a diferença para ele.

A segunda história é sobre amor e perda, em que lembra que, às vezes, a vida bate com um tijolo em nossas cabeças e que não devemos perder a fé. A única coisa que permite seguir adiante é o amor pelo que se faz. Você tem que descobrir o que ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as pessoas que você ama.
Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer grande relacionamento, só fica melhor e melhor à medida que os anos passam. Então continue procurando até você achar. Não sossegue.

A terceira história é sobre a morte, onde Steve pergunta: Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje? ”Se a resposta é “não” por muitos dias seguidos é preciso mudar alguma coisa.
Lembrar que estaremos mortos em breve é a ferramenta mais importante que teremos para ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo — expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar — caem diante da morte, deixando apenas o que é importante. Não há razão para não seguir o seu coração.
Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.
O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro alguém.
Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da vida de outras pessoas.
Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior.
E o mais importante: tenha coragem de seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário.
“Continue com fome, continue bobo.”

Temos que continuar bobos para acreditar em nossos sonhos, não para repetirmos as expectativas das outras pessoas, nem vir a este mundo como otários perfeitos, ricos ou pobres, sem idéias próprias, apenas sendo fantoches de uma sociedade que já nem sabe mais quem está manipulando o boneco.

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

CARRO FURTADO



(Sérgio Lisboa)
Eu admiro as pessoas que são despreocupadas com seus bens materiais. Parece incrível, mas ainda tem gente assim. O caso do automóvel, por exemplo: a maioria das pessoas deixa seus carros em qualquer vaga, a qualquer hora, confiando apenas nos alarmes dos carros e, muitas vezes eles não tem alarme, tranca ou seguro.
O meu carro tem tudo isto. Tem alarme, corta- corrente, tranca de direção, chave com decodificador e seguro contra roubo. Falta só GPS. Mesmo assim não o deixo nunca, sob hipótese alguma estacionado na rua. O meu, ou fica na garagem de casa ou em um estacionamento pago.

Um ladrão em uma entrevista (como têm ladrões dando entrevista!) disse que o carro mais difícil (não o impossível!) de ser furtado é o que é guardado em uma garagem paga. Eu nunca esqueci isso. Já aconteceu de eu ir a uma cafeteria tomar apenas um cafezinho de um real e gastar cinco reais num estacionamento pago.
O problema são os horários de atendimento desses estacionamentos. Aqui na minha cidade a maioria dos estacionamentos fecha às dezenove horas. Quem trabalha o dia todo e quer ir a uma academia, a uma loja, ao cabeleireiro ou qualquer local que não tenha estacionamento próprio e tem receio de deixar o carro na rua, no escuro, ou vai a pé, de táxi ou não vai. Um dia perguntei para um dos atendentes desses estacionamentos que fecham no início da noite o motivo deste procedimento e a resposta foi no mínimo hilária: “Nós temos medo de assaltos”.

Certa vez eu fui a um jantar em um edifício de amigos que não tinha garagem e os veículos tinham que ficar do lado de fora, num dos bairros de maior incidência de furto e roubo de veículos. O edifício ficava a três quarteirões da minha casa e era muito perigoso voltar a pé, tarde da noite. O resultado final foi que eu chamei um táxi para me levar e buscar por três quadras.
Sem falar que em cada centímetro quadrado da via pública tem um flanelinha ou guardador de carros. O flanelinha é classificado em três tipos distintos: o que lhe cobra para não furtar ou arranhar; o que lhe cobra mas não impede que furtem e o que lhe cobra e ainda assim lhe furta o carro.

Muita gente me pergunta por que me preocupo tanto se o meu carro é segurado contra roubo?
Primeiro: O trauma de ser lesado.
Segundo: O desconforto e a impotência de ter que voltar para casa com a mulher, os filhos e nove pacotes de compras, a pé.
Terceiro: O fato de ter que ir a uma delegacia, tarde da noite e ser atendido com todo aquele carinho, sendo olhado com cara de desprezo por ser um descuidado, mais um otário, que está ali enchendo o saco com mais uma ocorrência.
Quarto: A hipótese de estarem usando o carro justamente naquele momento em um assalto, em um atropelamento ou passando por vários controladores de velocidade colecionando muitas multas.
Quinto: Pode acontecer de ser recuperado mais torto e amassado do que um chapéu velho e a seguradora dar uma ajeitadinha e devolver assim.
Sexto: O dia em que levarem o carro pode ser justamente o dia em que estava no porta-malas uma série de coisas importantes e insubstituíveis ou até mesmo aquele vídeo seu e da sua mulher, gravado naquele motel com as cenas mais quentes que vocês já fizeram e estar sendo assistido por sabe-se lá qual maníaco psicótico com fixação em masturbação ou pior, estar sendo reproduzido pela internet.
Quanto pepino você pode ter pela frente porque quis poupar três reais de um estacionamento.

Eu preciso confessar para vocês que tem apenas um momento em que abro uma exceção e estaciono na rua: é quando vou visitar a minha mãe. Afinal de contas mãe é mãe! Ali sempre foi um lugar mágico, imaculado, imune a qualquer ataque das forças do mal. Ali eu não tenho medo de ter meu carro furtado. O pior é que ali foi o único lugar em que levaram o meu carro. Dá um desconto para mim, por favor! Isso aconteceu apenas duas vezes.

Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

VOLTAR DESCALÇO



(Sérgio Lisboa)
Teve um Grenal na década de setenta em que o Grêmio venceu com um gol do ponteiro esquerdo Éder. O Éder para quem não lembra ou não conheceu era o cara mais irreverente, malandro, mulherengo e para piorar ainda mais seu currículo, era um dos mais técnicos atacantes que este país já viu jogar.
Neste dia, num domingo de muito sol, no estádio do Inter, o Beira-Rio, Éder fez um golaço no segundo tempo e saiu para comemorar em direção às sociais do Internacional com a mão segurando o seu membro sob os calções e sacudindo freneticamente como a oferecê-lo para a torcida adversária. Aquele momento ficou marcado para sempre na minha memória, não o membro do Éder (qualé?!) mas aquela atitude dele de deboche em último grau sem nem sequer tomar um cartão amarelo pelos gestos obscenos que ele fez, muito diferente de como é hoje. Hoje se um jogador de futebol comemorar com um sorriso um gol marcado acaba expulso do jogo. Não é muito difícil de entender, uma vez que com jogos de resultados marcados é uma estupidez comemorar alguma coisa.

Vivíamos a ditadura e os militares que tanto nos amordaçaram sabiam que o estádio de futebol, tal qual o Coliseu da Roma antiga, era o lugar para o povo se esbaldar e os gladiadores ali dentro por pequenos instantes eram livres e não tinham essas regras bestas de não poderem sequer comemorar um gol ou uma mutilação sangrenta do adversário.

Voltando a comemoração do Éder, o que mais me chamou a atenção depois daquela comemoração foi a verdadeira chuva de objetos jogados sobre ele desde radinhos de pilhas, almofadas, bandeiras, pedras, guarda-chuvas (apesar do sol) e sapatos. Isso mesmo sapatos.
Eu sempre pensei, desde aquele dia, qual o grau de irritação de uma pessoa, não para ter coragem de jogar algo em alguém, mas em optar a voltar completamente descalço para casa em nome de uma desforra de tentar atingir alguém que lhe causou indignação ou lhe trouxe sofrimento.

Talvez o Presidente Bush naquele momento estivesse comemorando de uma forma tão obscena e tão debochada, como o Éder há trinta anos que mereceu, assim, levar umas sapatadas pela cara.
Antigamente se podia tanto ser debochado e obsceno quanto ser impulsivo e jogar os sapatos nos crápulas. Hoje só aos crápulas é permitido o deboche e a obscenidade.

O BOLO DA VERDADE ABATUMOU



(Sérgio Lisboa)
Sempre que alguém emite uma opinião, com raríssimas exceções, esta pessoa se manifesta em função do universo em que vive. Seus juízos passam pelas experiências que teve e principalmente por aquilo que ela representa. Escondidas sobre o manto da ética, as pessoas na realidade defendem um corporativismo muito forte.
Advogados lutam como leões para preservarem seu status bem como suas posições, assim como os médicos, policiais, professores, políticos, ladrões (já não tinha citado estes?) desempregados, sem-terras, religiosos, militantes políticos e até flanelinhas.
O suicida, que muitos pensavam que era um sujeito que não tinha amor pela própria vida, na realidade é o mais forte representante do corporativismo, levando consigo o seu corpo quando não vê mais saída na defesa dos seus interesses.

O mundo seria menos confuso se todos os especialistas, professores ou intelectuais informassem em que partido militam ou qual o seu trauma de infância em que assimilaram algum preconceito ou idéia fixa que teimam em não desgrudar de suas entranhas e sempre se manifestam ao primeiro sinal de adrenalina lançada na região sangüínea nos momentos acalorados de discussões ideológicas que tomam o seu corpo para emitir uma opinião ou uma verdade absoluta.

Quando as teorias tão arrogantemente defendidas caem e surgem as crises, especialmente as econômicas, a culpa é sempre de algo que não foi considerado, um detalhe esquecido, do Sobrenatural de Almeida ou do autor da teoria que agora, com a casa caída, todo mundo sempre soube que não daria certo. Ninguém questiona que talvez não exista uma receita de bolo para o que é certo.Talvez até exista uma receita de bolo para a verdade, mas assim mesmo será preciso muito cuidado com a procedência e o prazo de validade dos ingredientes, senão o bolo se torna abatumado, isto é, duro e pesado por pouca fermentação da massa (Viu? Sempre é necessário um crescimento da massa).

Muito se repete por aí que a verdade quase sempre é dura e pesada, mas nem por isso precisa ser abatumada.Aliás, o bolo da verdade abatumado é mais difícil de engolir do que o pãozinho quente da mentira.

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

DESENGANAR É PRECISO



(Sérgio Lisboa)
Alguém já disse um dia que não existem nem o Brasil nem os estados e sim apenas os municípios. O País trabalha para todos os estados (um pouco mais para o Nordeste é verdade) e o Estado trabalha para todos os municípios ao mesmo tempo (às vezes parece que não trabalha para nenhum) e alguns municípios ficam esperando que o país e o Estado trabalhem para eles.

Os moradores de um município querem que seus prefeitos sejam os salvadores da pátria, o que por si só já causa um problema de jurisdição. Quando muito seriam os salvadores da cidade.
Fazendo uma análise bem simplista e simplória dos anseios de uma cidade, um prefeito que fosse um verdadeiro iluminado e tivesse recursos e parcerias, conseguiria no máximo asfaltar toda a cidade (causando problemas de vazão de água para os dias de chuva e corridas de carro em dias de sol), uma boa iluminação, esgoto encanado para a população, umas pracinhas, boas escolas e uma opção cultural.
Não teria como conseguir emprego para todos, saúde com a qualidade esperada e necessária, segurança adequada, pois isto tudo depende de verbas federais, estaduais e de um contexto político-social muito mais abrangente que passa inclusive pela ordem financeira mundial.

O que o povo mais clama é por saúde, educação, segurança e emprego, basicamente.
O caso da saúde, embora existam postos municipais, os mesmos só atendem ao básico e por serem pagos e contratados pelo município, sempre serão insuficientes para a demanda, pois os recursos humanos e materiais são proporcionais aos recursos das prefeituras.
A educação municipal, responsável pelo ensino fundamental é bastante razoável e falta pouco para ser muito boa.
A segurança é uma atribuição do estado e não é adequada nem no âmbito estadual quanto no federal e até mesmo a segurança privada acaba falhando.
O emprego não tem como ser gerado num passe de mágica, mesmo atraindo várias empresas, pois hoje em dia é necessária muita qualificação e na maioria das vezes essas vagas são preenchidas por pessoas de fora da cidade.
Não esqueçamos que se uma cidade tivesse a sorte de estar bem servida em saúde, educação e qualidade de vida acabaria invariavelmente invadida por pedintes, assaltantes e excluídos da educação e saúde de outros municípios, comprometendo as suas melhorias.

Pior do que tirar a esperança de alguém é enganá-lo com falsas esperanças.
O debate fica mais rico e a humanidade avança muito mais quando ela sabe de antemão o que não poderá ter. O tempo é muito precioso e é necessário que avancemos mais rapidamente para recuperar séculos de espera por salvadores e falsos profetas.
Como já foi dito há muito tempo: “posso não saber exatamente o que quero, mas sei muito bem o que eu não quero”.
Apenas conseguindo o mínimo possível é que estaremos aptos e habilitados para tentar o impossível.
Portanto, rumemos ao sonho impossível exigindo imediatamente o mínimo possível.

Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

O PREÇO DA ALMA



(Sérgio Lisboa)
Esta calamidade que quase dizimou o estado de Santa Catarina me lembrou de uma estória que li sobre um padre de um município brasileiro que durante uma enchente foi procurado pelo prefeito da cidade para que, de forma emergencial acolhesse os flagelados no salão paroquial da igreja, talvez o único lugar mais adequado e espaçoso da cidade. O padre prontamente aceitou o pedido do prefeito, surpreendendo o mesmo com uma pequena condição: - Não tem problema nenhum, senhor prefeito. São apenas cem reais a diária.

A aproximação da igreja ou da religião com o dinheiro e as posses é tão antiga e estreita quanto o confronto do bem e do mal. Algumas delas trabalham tanto esta idéia que chegam a passar mais de setenta e cinco por cento do sermão alertando os fiéis sobre a necessidade ou desnecessidade, sobre a importância ou sobre a superficialidade do dinheiro e das posses. Falando bem ou falando mal, mas sempre falando nele.
O evangélico com seu dízimo, o católico com sua oferta, o espiritista com sua consulta, o pai-de-santo com seus trabalhos, os ateus com seus achaques, todos parecem (eu disse parecem), se direcionar para as posses materiais e menos para as recompensas espirituais.

Pensar em se drogar como uma forma de fuga também não é um bom negócio, pois o preço a pagar também é muito alto e à vista.
Esquecer tudo e ir se divertir em um bingo ou cassino é tão nefasto financeiramente quanto qualquer outra escolha.
Sair para consumir produtos no comércio como uma forma de distração nos deixa de joelhos perante os traficantes de créditos deste país.

O que fazer, então?
Quando não agüentarmos mais o confisco do nosso dinheiro pelo governo, nos afastarmos das religiões por elas também cobrarem de nós a sua parte, fugirmos de drogas, jogos, consumos e acabarmos finalmente sentados em um divã, completamente perdidos e necessitados de um auxílio médico, descobriremos que estamos diante do último predador de nossas economias.
O pior é quando o médico, após nos segurar durante seis meses, sempre cobrando a consulta, sentindo-se impotente frente aos mistérios da vida e da fragilidade da ciência, nos olha nos olhos e diz: - O teu problema é espiritual.

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

SOBRE PEDÁGIOS E LOBOS



(Sérgio Lisboa)
Qual o segmento econômico que registrou a maior rentabilidade do país em 2007? Alguns dirão que foram os bancos, outros as telecomunicações. Alguns mais afoitos dirão que foi a indústria siderúrgica. Quem sabe não são as fábricas de bebidas e cigarros?Não! Nenhum deles!
O segmento econômico que registrou a maior rentabilidade do país em 2007 foi o de administração e concessão de rodovias. Isso mesmo! Os pedágios! A informação faz parte de um estudo elaborado pela agência classificadora de risco de crédito Austin Rating e foi divulgado na coluna Mercado Aberto pelo jornal Folha de São Paulo, no início deste ano.Com uma rentabilidade de 33,9%, as concessionárias de pedágio ficaram à frente de setores historicamente fortes da economia brasileira como o financeiro, o de telecomunicações, a siderurgia e o segmento de bebidas e fumo.

Eu lembro que quando era garoto tínhamos que driblar os meninos mais velhos e grandões que exigiam de nós uma espécie de pedágio, para que pudéssemos passar pela calçada ou pelo corredor da escola, pedágio este que poderia ser a nossa merenda, algum trocado, bolitas de gude ou qualquer coisa que tivéssemos na mão. Não era oferecido nenhum benefício em troca, apenas a segurança de que não iríamos apanhar. Desde aquela época já se sabia que cobrar pedágio em caminhos já prontos e construídos é sempre melhor e mais atrativo para quem cobra.

A proposta do governo gaúcho de prorrogar o prazo das concessões em virtude de evitar uma estagnação da economia do Estado, além da preocupação com a segurança do trânsito é louvável. Apenas é preciso dizer que ela é ilegal, pois fere a Lei de Licitações, não teve tempo hábil para um grande debate técnico e financeiro e, não faz muito tempo, o Legislativo estava às voltas com uma CPI dos pedágios que apontou uma série de pontos obscuros e uma lista de inevitáveis alterações e melhorias, bem como a constatação de que as planilhas de custo e de lucro não estavam a contento para que se pudesse emitir um juízo com maior convicção.

Não posso deixar de lembrar que é visível nas rodovias “pedagiadas” uma melhor qualidade na infra-estrutura, no atendimento, na sinalização (esta nas rodovias do governo não são nada visíveis) mas também é visível que a frota brasileira cresce exponencialmente e por conseqüência a arrecadação dos pedágios. Além dos pedágios brasileiros estarem entre os mais caros do mundo, uma nova licitação pode trazer menores taxas, uma vez que os contratos precisam ser revistos, pois quase duas décadas se passaram e a tecnologia, normalmente, consegue baratear os custos.
A atratividade de empresas para esta exploração está baseada num lucro astronômico, mas é o interesse público que está em jogo. A concessão pública deve servir ao desenvolvimento do país. Mesmo quem nunca utiliza os pedágios acaba pagando por eles, pois todas as mercadorias e serviços são transportados e passam por rodovias e por pedágios.

Aqui no Rio Grande Do Sul, pelo que se lê a arrecadação é de trezentos milhões por ano (1850 km a R$145.000,00/km) e a Governadora exige, para a prorrogação de mais quinze anos, um bilhão e trezentos milhões em investimentos. Este investimento exigido das empresas é possível ser recuperado em quatro anos, tendo mais onze anos de lucratividade total. Além do mais, nada impede que as empresas não cumpram as metas de investimentos combinadas ou diluam estes investimentos dentro dos quinze anos que têm pela frente, praticamente não sentindo nenhum desconforto com a contrapartida.

Fazendo uma analogia, parece que a Governadora está propondo ao lobo cuidar das galinhas por um tempo maior ainda, desde que ele se comprometa a pintar as cercas do galinheiro. Que proposta difícil de aceitar! Eu se fosse o lobo, não só aceitaria a proposta como ainda me ofereceria como voluntário para cuidar também das ovelhas. Vai que ela aceita!

Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

O BRASIL EMERGE NA ENCHENTE



(Sérgio Lisboa)
O país acordou estarrecido com a catástrofe que se abateu em Santa Catarina, um dos Estados mais belos do Brasil e certamente um dos pedaços de terra mais exuberantes do mundo.
O que se viu em função deste grave problema foi todo o tipo de atitudes, desde a mais pura solidariedade até a mais vil rapinagem que deixariam anjos constrangidos e corvos e urubus enrubescidos. Viu-se tristeza, carinho; viu-se força e superação.

Uma tragédia destas dimensões faz aflorar tudo de bom que cada indivíduo possui e por conseqüência, por serem feitos de indivíduos, faz aflorar também tudo de bom que o Estado e a iniciativa privada possuem.
Viu-se a Polícia Militar abordando indivíduos suspeitos de saques a residências abandonadas, com uma gana e com um respaldo popular jamais sentidos e trocados entre população e polícia. Grandes empresas responsabilizando-se por donativos e suplicando pelas doações. O Ministério Público fazendo parcerias e fiscalizando o bom andamento das doações. Crianças doando o pouco que possuem e ajudando a carregar os mantimentos.

Alguém já disse e durante todo o tempo se repetiu que o Brasil é um país abençoado por não ter terremotos, enchentes, maremotos, ataques terroristas e invasões de exércitos estrangeiros (e precisa?).
Os Estados Unidos a maior força nacional do mundo em todos os sentidos materiais, sofre o tempo todo com a inclemência da natureza, seja com nevascas, furacões, maremotos ou com constantes preocupações com ataques terroristas. Todos estes problemas ao invés de debilitar os EUA, criam nele uma solidariedade e um sentido de unidade pátrias raramente vista em outros lugares.

Ficou com mais esta tragédia nacional, a lição de que todos nós não podemos esquecer, como um capítulo de auto-ajuda, que somos muito solidários, que somos muito unidos, que somos muito generosos, que somos gente boa.
A união deste país em torno de uma tragédia nacional, sem parar para pensar, sem orquestramentos, sem partidarismos, sem terceiras intenções, fez com que nós voltássemos a acreditar que o Brasil é sim, o país do jeitinho, mas do jeitinho carinhoso de ser solidário, do jeitinho doce de ser amigo, do jeitinho forte de ser protetor, do jeitinho sério de ser justo, do jeitinho constrangedor de dizer que os canalhas precisam mudar de ramo. Falta apenas obrigá-los a morar nas encostas dos morros.

Domingo, 16 de Novembro de 2008

A VOLTA DOS MILITARES

(Sérgio Lisboa)
Houve um tempo em que o Brasil foi comandado. Os militares através de um golpe em 1964 assumiram o poder e impunham um governo com mãos de ferro, conhecido como “Ditadura”.
As opiniões contrárias ao regime eram sufocadas de todas as formas possíveis, inclusive com a própria vida. Por causa disto que naquela época, quando perguntado às pessoas como elas estavam, a resposta era sempre a mesma: “Não dá para reclamar”! Literalmente, ninguém podia reclamar.
Algumas pessoas tentavam de muitas maneiras atentar contra o regime e até mesmo derrubá-lo, organizando grupos revolucionários com táticas de guerrilhas, realizando seqüestros, assaltos a bancos, etc. Para enfrentar os militares eram usadas táticas militares. Até hoje isto se reflete, pois quem se engaja politicamente em uma causa acaba se tornando militante. Talvez as coisas mudem quando nós começarmos a civilizar ao invés de militar. Sei lá!

Um desses revolucionários acabou preso naquele período e sofreu as piores torturas imagináveis trazendo seqüelas e traumas até hoje, que de alguma forma contribuiu para que não conseguisse se firmar profissionalmente, passando por períodos dos mais difíceis, enfrentando o alcoolismo, desemprego, depressão e uma série de dificuldades que se avolumam em casos como este.
De todas as formas de se sobreviver, tanto aqui como em quase todo o mundo, sobra para algumas pessoas o famoso biscate ou bico, ou um emprego temporário qualquer.
Após fazer todo tipo de trabalho para sustentar a sua família, aceitou trabalhar no momento como motorista de táxi. Uma profissão difícil, perigosa, cansativa, mas muito digna.

Um desses dias comuns em que estava esperando passageiros para mais uma corrida, surge em seu táxi, dois passageiros. Não eram dois passageiros comuns e sim dois jovens militares, facilmente reconhecidos pelo corte de cabelo e pela postura, além da experiência adquirida por quem conviveu e sobreviveu a eles.
Naquele momento passou pela cabeça de forma vertiginosa tudo aquilo que ele sofreu com os militares, com a ditadura, com toda aquela luta que ele sempre julgou que estava fazendo como um herói incompreendido e que apenas pretendia ajudar o país.
Os tempos são outros. Estavam ali diante dele, como passageiros, como clientes, quem iria contribuir para o seu sustento e de sua família. Dois jovens militares que não viveram aqueles tempos sombrios e não podem ser responsabilizados pelos erros e excessos de seus antecessores. Passou até a ter um carinho por aqueles meninos.
A sua cabeça girava a mil, voando em pensamentos que não teve sequer tempo de trocar uma só palavra com seus passageiros chegando rapidamente ao destino dos jovens. Na hora de desembarcar e acertar a corrida deu um sorriso angelical para os jovens militares esperando o pagamento e até uma palavra amiga ou um sorriso de retribuição, mas as palavras dos jovens foram secas, firmes e fortes, revivendo seus piores pesadelos: ”Passa a grana que isto é um assalto!"
(Baseado em um fato real)

Sábado, 15 de Novembro de 2008

POSSO PAGAR A CONTA?

(Sérgio Lisboa)
No dia 24 de outubro, uma pessoa resolveu encerrar a sua conta bancária e fazer um acerto com um saldo devedor que tinha ficado. O Banco respondeu que ela não podia encerrar a sua conta. Primeiro tinha que pagar o que devia para somente após encerrá-la. Enquanto isso os juros iriam se avolumar.

O dia 24 de outubro já está definitivamente marcado para a humanidade como um dia cataclísmico, pois foi exatamente em vinte e quatro de outubro de 1929, há setenta e nove anos, que o mundo sofreu a maior crise econômica de sua história. Uma característica marcante que contribuiu tanto para a crise de 1929 quanto a de 2008 foi, entre tantos, a desigualdade na distribuição de renda, levando os detentores do capital à especulação financeira, além do liberalismo econômico tão apregoado pelos capitalistas como a única forma de sucesso econômico, plenitude de vida e modernidade. Não custa lembrar que o mundo capitalista só recuperou-se mesmo da crise de 1929, com a II Guerra Mundial. Espero que eles na leiam este artigo.

Aqui no Brasil, o Ministro da Fazenda Guido Mantega, por sua vez, está preocupado com a inércia dos países ricos com relação à crise e espera ansioso por uma definição de regras claras ou de uma intervenção divina dos poderosos para que, segundo ele, esta recessão não se transforme em depressão. Alguém precisa dizer para ele que recessão é o que enfrentamos diariamente enquanto depressão é o que sentimos permanentemente.
Enquanto os outros países estão enxugando suas casas após o Tsunami, o Brasil vai visitar os vizinhos para saber o que deve fazer, enquanto seus próprios móveis estão boiando pela sala de estar.

O Brasil é um dos poucos países que não forneceu nenhum socorro monetário para a classe média, diferente de outros países como os próprios EUA e a China. Estes últimos, além de socorrerem seus bancos forneceram um incremento para o consumo da população. O Brasil fez só a parte fácil da lição de casa: deu socorro apenas aos bancos.

Tanto em 1929 como agora, somos nós, através dos poderes públicos que manteremos de pé bancos quebrados, com a perda de milhares de milhões de dólares. Tudo o que pedimos é que de vez em quando os bancos nos deixem encerrar a nossa própria conta.

OBAMA BIN LADEN?



(Sérgio Lisboa)
Falar mal do Presidente americano George Bush é um passatempo mundial, quiçá interplanetário. Isso mesmo! Não é de se duvidar que essas sondas espaciais já não tenham achado pichações em rochas nas partes escuras de outros planetas com a inscrição “Fora Bush”, obviamente negadas e deletadas pelo governo americano.
Eu nunca vi e acho que ninguém nunca viu alguém em uma mesa de bar ou numa roda de amigos defendendo o Presidente Bush. Quem se atrever a fazer isto deve estar de mal com a vida ou quer chamar a atenção das pessoas com uma irreverência quase doentia usando do contraditório só pelo prazer de ser diferente.

Já Barack Obama é tudo de bom! A reencarnação de Jesus Cristo para alguns; o próprio criador disfarçado para outros.
Assim como a esmagadora maioria das pessoas, não aprovo as coisas que Bush faz nem tenho procuração para defendê-lo e não estou nem aí para ele, até porque não é nem parente da minha diarista.
A única coisa que me chamou a atenção desde o início da cobertura das eleições presidenciais americanas foi a semelhança do nome do candidato democrata Barack Hussein Obama com o inimigo número um dos Estados Unidos, Osama Bin Laden, sem falar que seu nome do meio é Hussein, mesmo nome de Saddan, que estava em primeiro lugar no ranking dos inimigos dos EUA, recentemente.
A semelhança entre as nomenclaturas é que me faz pensar, bem como a proximidade dele com as raízes dos inimigos americanos. Sem falar que Obama tem como seu vice-presidente alguém que se chama Joseph Biden.

Barack Hussein Obama é filho de um queniano e viveu grande parte de sua infância na Indonésia, maior país islâmico do planeta. Inclusive no início do ano a rede de tevê NBC ao trazer uma matéria sobre Barack Obama ostentava, ao fundo, a foto do Osama Bin Laden. Foi um corre-corre dos diabos e pedidos de desculpas no ar dos apresentadores do noticiário.
Para um país forte como os EUA, sendo a maior vitrine política e econômica mundial, que sempre levou a sério superstições, ter esses pesadelos como coincidências deve ser motivo de preocupação. Para os eleitores de Barack Obama que foram em sua maioria imigrantes, desfavorecidos e excluídos, até o próprio Osama Bin Laden talvez tivesse sido eleito, ainda mais se a disputa fosse com um candidato apoiado por Bush. Aliás, Bin Laden só não concorreu à presidência americana porque seu passaporte não ficou pronto a tempo e o antigo ele tinha deixado dentro de um carro-bomba, recentemente.

Pensando bem o nome do cara não tem nada a ver com a sua ideologia ou com a sua postura como homem público e cidadão e o seu nome pode ser até Mickey Mouse ou Mexilhão da Silva, desde que ele não seja manipulado como um boneco da Disney ou tenha um cérebro igual à de um molusco. O que vale mesmo é a sua boa atuação como governante.

Aqui no Brasil, o país da alegria e da irreverência, o nome do presidente não importa muito. O que importa para nós é sua postura... no palco. Eu sugiro até um nome para o próximo presidente do Brasil: Frank Sinatra da Silva.

Domingo, 9 de Novembro de 2008

COMO BOIS NO CAMPO



(Sérgio Lisboa)
A grande maioria tem a idéia de que o Governo tem que fazer tudo por nós, pensar por nós, agir por nós. O duro é aceitar que tudo isso que eles fazem é o melhor que podem e como se fossemos nós quem estivesse fazendo. Talvez seja essa a melhor explicação para as atitudes daqueles que defendem o Governo, de qualquer partido e em qualquer época, com unhas e dentes: não são capazes de ter suas próprias idéias e se vangloriam com a menor decisão do Governo como se fosse a sua própria melhor decisão.
A única iniciativa que nos permitimos é dar o aval para legitimar quem dos deles escolher para agir e pensar por nós. Sim, pois as opções de escolha de lideranças políticas principalmente as de maior relevância, com posições mais estratégicas, já vem com o cardápio pronto, bastando-nos apenas indicar quais dos pratos nos impõem e somente estes nós podemos escolher.

Qual liberdade que nos resta se as coisas são assim? Como bois no campo, ficamos ali, à mercê de quem nos aprisiona e nos deixa comer grama, como se a mais bondosa entidade estivesse nos cuidando e protegendo e que o nosso fim fosse o de apenas pastar protegidos de predadores, tendo ainda, de brinde, uma bela convivência em grupo com outros iguais, numa interação social quase pacífica, todos tão “realizados” quanto nós. Como bois nos impõem uma dieta saudável (comer grama), temos uma vida em sociedade (vivemos em manadas), moramos em um condomínio fechado (nosso campo tem cerca e porteira) e nunca nos revelam que o nosso futuro é o abate.

As nossas mazelas estão diretamente relacionadas a este hábito hereditário de depender para tudo do Governo, transferindo-lhe poderes civis, políticos, de decidirem os nossos destinos e usurparem as nossas individualidades e ainda atribuindo-lhes poderes divinos. Entregamos as nossas vidas para o Governo e acreditamos piamente que ele está sempre tentando fazer o melhor para nós, além de nos dar pasto durante toda a vida, um lugar para vivermos, proteção à nossa integridade, tratamento de saúde quando estivemos doentes, etc., e a única coisa que ele nos pede é que no final entremos na fila para retribuirmos com o nosso pescoço tanta bondade.
As pequenas cobranças que ele faz ao longo de nossa vida através de impostos sobre a alfafa, ração, vacinas, aluguel do campo, cercas e arames, ferro de marcar (produtos siderúrgicos estão caríssimos), são apenas ajustes necessários para a manutenção da máquina de abate.

Eu estou com o Governo e não dou nem um pio, digo, um mugido e Deus nos livre do roubo de gado.

Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

JURAMENTO DE HIPÓCRITAS

Se você falar ou comentar sobre uma preferência sexual diferente da maioria, ser muito favorável ao armamento da população, defender o direito de se drogar licitamente, demonstrar uma posição um pouco mais machista, será execrado no ato. No entanto as letras de Funk fazem uma apologia às drogas, ao armamento, ao sexo desmedido, à homofobia, à falta de respeito à mulher e tem espaço privilegiado na grande mídia, recebendo, seus representantes, tratamento de verdadeiros reis.

Se você defender ou até mesmo resolver pôr em prática, a invasão de bancos que estão visivelmente lesando a população, com lucros vergonhosos, remunerando seu investimento com um décimo do que você paga pelo investimento do banco, será preso no ato e talvez nunca mais saia da prisão.

No entanto o Movimento dos Sem-Terra, invade o que lhes dá na telha, destroem tudo, num capricho tenebroso de verdadeiros ditadores insanos, em nome de uma luta justa e corajosa para recompôr a igualdade perdida.

Se você atacar, literalmente, um cidadão que está envolvido em um desvio de verbas incalculáveis da Previdência Social, bem no momento em que você recebe a notícia que será refeito o cálculo de sua aposentadoria, diminuindo-a pra menos da metade de tudo o que você contribuiu a vida inteira, você terá que usar o pouco que sobrou dessa aposentadoria aviltante para indenizar o pobre do cidadão que só desviou essa verba fantástica porque foi envolvido “inocentemente” em uma teia de conspiração e corrupção.

Se você fizer qualquer coisa que seja honesta, com princípios éticos, morais, fraternos, humanos, com boas intenções, sem maldades, no afã de proporcionar uma ajuda a quem necessita, terá sua vida investigada como uma autopsia, para tentar descobrir o que se esconde atrás dessa figura ímpar que tenta mascarar uma vida de maldades, de maracutaias, de desvios, de negociatas, de contravenções, de crimes e de desajustes sociais, com “trabalhecos” sociais, que duvido não sejam financiados de alguma forma ilícita pelo governo.

É preciso ter conivência criminosa e aceitar pacificamente o mal-intencionado para ser considerado indivíduo-padrão.

É preciso deixar de ser bom para não chamar a atenção.

É preciso não mais se indignar com as injustiças para ter uma vida normal.

É preciso calar diante de todos e se anestesiar diante de tudo para finalmente poder dizer: “graças a Deus estou inserido no processo social”.

Sérgio Lisboa.

Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

FORMADORES DE OPINIÃO



Muitos cronistas, escritores e jornalistas se orgulham muito de serem “formadores de opinião”.


Hitler foi um dos maiores formadores de opinião que o mundo conheceu. A Xuxa e a Gisele Bünchen também o são atualmente.


O Faustão, o Luciano Huck, o Gugu e o Silvio Santos também são grandes formadores de opinião.


O grupo Rebelde também.


O Datena também!!!


A Derci Gonçalves era uma bela formadora de opinião. Inclusive ela era capaz de fazer palestras em empresas, resgatando no empresário o foco principal de sua atividade-fim que é o lucro. Para ilustrar melhor essa teoria, quando perguntada sobre qual a colocação que a Escola de Samba em que ela desfilou com os seios à mostra tirou naquele ano, ela simplesmente fuzilou: Sei lá! Que se fod...! Só queria saber do meu cachê!


Não é lindo?


O açougueiro da esquina de casa também, pois sempre faz com que eu leve um músculo de terceira, dizendo que é mais macio que filé. Faz com que eu mude de opinião acreditando nele e ainda diz que meu problema não é a dureza da carne e sim um problema odontológico, de dentição fraca por “farta” de vitaminas.


O cara é fantástico!



Formadores de opinião!


Chegamos a um ponto em que o que é ruim demais, o que não nos traz nenhum proveito, deturpa o nosso conhecimento, a nossa personalidade, acaba de vez com a nossa individualidade, nos induz a pensar de forma totalmente alienante, se apresentando como o grande pensador do século e, quando resolvemos duvidar de suas teorias, acabam citando estelionatários de marketing profissional que migram como aves de rapina, das grandes religiões universais para as grandes teorias econômicas mundiais, tornando realidade o tele-transporte, a serviço de uma materialização de moléculas de DNA, classe “171”.



Se for inevitável ouvir um formador de opinião, eu prefiro ouvir atentamente a um vendedor-ambulante de uma praça central.


Pelo menos com esses ainda dá para pechinchar.


Sérgio Lisboa.

Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

OPERAÇÃO PAPEL HIGIÊNICO

Por uma daquelas circunstâncias do destino, que fizeram o mega-enrolado Daniel Dantas ter o mesmo nome do ator, outros indiciados no processo tiveram seus homônimos em outras profissões, inclusive de escritores, ou a pior classe deles: a de cronistas.

A PF entrou na casa do cronista e apreendeu seu HD, onde tinha inícios de crônicas, daquelas feitas durante uma sessão de vinhos argentinos de dez reais.

Inclusive ele tentou protestar contra os agentes, alegando que eles deveriam investigar essa conspiração argentina contra nós, derramando no mercado, vinhos com alguma propriedade alucinógena que, de alguma forma, removia as nossas cataratas e nos fazia enxergar o que realmente estava acontecendo no país. Não ajudou muito a sua situação inicial.

Esses inícios de crônicas (confundidos com indícios telefônicos) só não foram “deletados” porque ele se embebedou tanto que a prioridade era limpar o vômito do teclado, no dia seguinte.

São inícios e, ao mesmo tempo, restos de textos, que ele fez logo após discutir com a sua mulher sobre a importância de uma reunião de Tupperware em casa, em contraponto às iniciativas ambientais mundiais contra o uso de plástico no meio-ambiente.

Com o argumento de sua mulher de que o pau de macarrão dela ainda era de madeira, mostrando toda a sua preocupação com o meio-ambiente, ele acabou cedendo, até porque ela contribuía e muito, para a preservação da fauna, com a criação de novos galos, mesmo que fossem na testa dele. A coisa só se agravou quando ele quis saber se aquela madeira do pau de macarrão era madeira legalizada.

Já na Polícia Federal, o mais engraçado foi o cronista ter que dar o seu depoimento explicando o que ele queria dizer com aquele início de texto em que compara a Madre Teresa com a inflação do país.

Não convenceu muito ele explicar que ambos só ajudaram os pobres quando estiveram por baixo. Pelo menos, um cara do Pelotão de Choque (parecia ser do Pelotão de Choque) não sentiu uma energia positiva na explicação.

Ou aquela em que ele faz um discurso inflamado contra a liberdade de ex-pressão, ou seja, contra o reaproveitamento de torturadores da ditadura, como roteiristas de programas de auditório.

Não foi convincente quando, tentando remendar, disse que as dançarinas do programa são perfeitas para programas.

Hoje em dia é preciso ter cuidado até com o nosso nome, pois sempre vai ter alguém investigado com um nome idêntico, que fará com que acabemos explicando tudo o que fizemos nos últimos anos, inclusive o fato de aumentarmos o consumo de papel higiênico.

A Receita Federal pode provar que o aumento do consumo desse material de limpeza não condiz com a nossa renda declarada.

Sérgio Lisboa.

Terça-feira, 15 de Julho de 2008

UM BOM PARTIDO NO SUPERMERCADO



Eu li numa dessas revistas especializadas (sempre tem uma revista especializada para ensinar a ter as coisas que ninguém nunca consegue e só você vai conseguir) que para se achar um bom partido, tem lugares próprios e específicos, provados cientificamente.


O bom partido que eu estou me referindo aqui, é um bom namorado, um bom marido e não um bom partido político, até porque esse termo já é um termo impossível, grafado com “vício de origem”.



Uma das dicas da revista é procurar numa seção de vinhos de um bom supermercado, não em um “atacadão”, pois lá só vai encontrar pinguço pegando vinho de garrafão, um tinto e um branco, para misturar em casa e fazer um rosé “pra muié”.



Outro lugar aconselhado são as seções de livros, pois parte-se do princípio de que quem se preocupa com a leitura é uma pessoa culta, fina e que tem muito para conversar e ensinar. Só é preciso ver qual corredor de livros essa pessoa está, pois se for alguém interessado em “Jack, O Estripador” ou “ A Biografia De Xuxa”, ou até mesmo as crônicas de “Bruna Surfistinha”, é melhor sair de fininho e ir em outro tipo de estabelecimento.



Se você quer achar alguém com dinheiro no supermercado, por exemplo, é só ficar junto à peixaria, mas colado aos camarões e salmões. Não desgruda deles. Quem chegar e comprar um desses pode ter certeza que algum dinheiro a mais essa pessoa tem. Mas observe bem cada movimento da presa, pois ou você passa o resto da vida comendo do bom e do melhor ou vai ter que se virar na zona para sustentar um pobretão metido a rico.


Se nunca aparecer ninguém, o que é mais provável, você corre o risco de, assim como tem a “Maria Gasolina” e a “Maria Chuteira”, ser conhecida por um termo mais nobre, como a “Maria Salmão”. É bem mais chique!


Apesar de todas essas dicas, eu me atrevo a sugerir para quem quer conseguir um bom partido, e que esse seja simples, carinhoso, fiel e firme em suas convicções, além de ser um amante à moda antiga, fique de prontidão na seção de farináceos, e agarre o primeiro homem que botar a mão em uma caixa de Maizena.


Só tem um problema: ele pode ser um debilóide que adora mingau e mora com a mamãe e leva para ela fazer para ele ou deve ser casado e com filho.


Ninguém disse que seria fácil.


Sérgio Lisboa.






Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

SORRISO DE CRIANÇA



Hoje eu fui ao shopping levar a minha sobrinha naqueles brinquedos de bolinhas e labirintos, de escorregadores e tubulações.


Eu achei bem didático esse brinquedo, uma vez que ele antevê situações que as crianças enfrentarão no futuro, com muitos labirintos, escorregões e entradas pelo cano.



Enquanto ela se divertia por lá, eu fiquei do lado de fora, numa verdadeira alegoria da própria vida: as crianças e os jovens fechados em seu mundo de fantasia e nós, os adultos, do lado de fora, sentindo a brisa fria da realidade soprando em nossos rostos, livres, preocupados e solitários, quando na verdade, queríamos estar presos e seguros a um grupo, protegidos nem que fosse por um olhar vigilante que nunca nos perdesse de vista.



Sentei num café, onde havia várias mesas, praticamente ocupadas e, por incrível que pareça, um sofá, com uma mesa, completamente vazios.


Em cima da mesa uma revista de circulação nacional, cujo título era: ”A vida começa aos 50”.


O que me fez pensar que eu devia passar a maior parte de minha vida sem me preocupar com nada, para só após os 50, pensar em viver.


Sentei sozinho naquele sofá, com uma mesa na frente só para mim.



Enquanto sorvia o meu café, que veio com um copinho de água bem pequeno, capaz de matar a sede de um beija-flor, se não for verão e um pau de canela para ser usado como colher e mexer o café, além de uma bolinha doce, que mais parecia um haxixe, que não me atrevi a tocar, deixando-a como enfeite do café.



Olhei para aquelas atendentes tão jovens, com um futuro tão incerto, sendo monitoradas por um gerente tão jovem quanto elas, só que aprendera a fazer cara de sério para impor um respeito à sua função, mas que naquele momento se juntou a elas numa cumplicidade nunca vista, como que a dizer que estavam todos no mesmo barco.


Pensei em escrever algo sobre eles ou sobre aqueles tipos que passavam por todos os lados.



Aquele sofá só para mim, aquele café, aquela infinidade de personagens e aquela paz, tudo parecia um cenário montado, ideal para uma crônica, bastando apenas escolher o tema.



Mas ao olhar para o lado havia uma menina, que duvido tivesse mais do que quinze anos e um carrinho de bebê com um bebê-menino, certamente com menos de um ano de vida.


E aquele bebê me olhava e sorria, com um sorriso tão forte e tão espontâneo, que eu não vi mais nada ao meu redor.


Ninguém mais viu a nossa troca de olhares e de sorrisos, só nós dois. Eu e o bebê. Nem a menina que o acompanhava notou a nossa interação.



Então, inexplicavelmente, comecei a derramar lágrimas, não por tristeza, depressão ou algo assim. Eu tinha paz, eu tinha conforto e tinha o sorriso de uma criança desconhecida. Naquele momento eu tinha tudo.


Não sei ao certo onde a vida começa, se é aos 20, 40, 50 ou 90.


Só sei que ela passa, magicamente, pelo aval sincero de um sorriso de criança.


Sérgio Lisboa.



Terça-feira, 8 de Julho de 2008

CANDIDATOS

O repórter foi entrevistar uma prostituta candidata à reeleição deste ano, que começou muito cedo a sua profissão não muito recomendável (esta expressão serve para quaisquer das duas profissões dela) por isso não teve a mesma sorte de muitos de nós que é não ganhar dinheiro, digo, de ter estudado.

(Repórter) Soube que a senhora saiu num jornal de grande repercussão.

(Candidata) Eu recebi um elogio de um jornal pela minha “autuação” no horário eleitoral gratuito.

(Repórter) Imagino! Esse jornal devia ser “autuado”.

(Candidata) O jornal disse que nos horários eleitorais gratuitos a minha “autuação” foi considerada tão boa quanto às falas de uma atriz pornô.

Eu estou me referindo às falas! Não estou me referindo às outras “autuações” das atrizes pornô, que daí, moléstia a parte, eu daria melhor!

(Repórter) Tenho certeza! Você não tem projetos?

(Candidata) Sim, projeto de aumentar a minha casa e fazer mais um puxadinho.

(Repórter) Não tem programa?

(Candidata) Tenho, é vinte real. Boquete até faço por cinquinho. Desculpa! Foi força do hábito.

(Repórter) E plataforma? É modelo Anabela de marcas paraguaias. Prefiro essas porque ninguém consegue falsificá-las. As outras eu não gosto, pois apertam meus calos. Sabe como é: político que se presta tem muito calo para pisar neles. Sem falar em joanete de usar sapato apertado e dançar em quermesse de pobre.

(Repórter) Algum projeto assistencial, tipo bolsa-família?

(Candidata)Bolsas só Luis Vulcão.

(Repórter) Não seria Louis Vuitton?

(Candidata) Por acaso você usa bolsa? Você deve ser desses Xerox que cortam dos dois lados.

(Repórter) Não. Eu acho que sou um Gillette e copio dos dois lados.

(Candidata) O quê?!!

(Repórter) Nada não! Não te dói a consciência?

(Candidata) O quê que é isso?!!

(Repórter) Qual o teu projeto para a proteção à criança?

(Candidata) A melhor proteção da “criança” ainda é a camisinha.

(Repórter) Você está associando o termo “criança” ao órgão sexual?

(Candidata) Eu estou falando com um poliglota das cavernas? Eu utilizei um cogumelo. Já ouviu falar? São palavras de duplo sentido.

(Repórter) Não seria um cognato? Uma ambigüidade?

(Candidata) Aí você já está misturando massa corpórea com o baixo ventre, metendo o umbigo no meio.

(Repórter) Apesar de tanto absurdo que eu ouvi, até que enfim uma coisa mais saudável e consciente, que é o uso de preservativo nas relações sexuais.

(Candidata) Relações sexuais? Para mim todas as relações são sexuais, principalmente a relação de nós políticos com o povo.

(Repórter) Qual a mensagem que a senhora deixa para o seu eleitor?

(Candidata) Meus queridos! Eleição e meretrício não tem muita diferença: você é obrigado a escolher os candidatos que estão ali na sua frente. Escolhe um, dá o teu dinheiro para ele, que ele vai fazer com você o que sabe fazer de melhor.

A “sastifação” é garantida!

Sérgio Lisboa.

Sábado, 28 de Junho de 2008

PRAGA DE MÃE



Minha mãe, nas poucas vezes em que pudemos conversar, me dava alguns conselhos definitivos, tais como: se um dia eu estivesse apaixonado por uma mulher e quisesse esquecê-la, eu deveria imaginá-la sentada no vaso sanitário com uma tremenda diarréia.


Confesso que deu resultado naqueles tempos de amor não correspondidos, mas levei um tempo para superar isso e não prejudicar outros relacionamentos posteriores, bem correspondidos, ao ficar imaginando a mesma cena com todas as outras mulheres que eu encontrei em minha vida.



Em alguns dos meus romances eu não precisei usar a técnica de minha mãe, pois algumas pretendentes ao meu coração, logo depois de uma refeição romântica, davam um sonoro arroto, daqueles de ruborizar vikings.



Outros conselhos que recebi de minha mãe foi com relação às drogas que, ao invés de termos um papo consciente alertando sobre os perigos do envolvimento com essas substâncias e das conseqüências nefastas tanto físicas, sociais, psicológicas, etc., ela simplesmente fuzilava: - Só o que me falta você estar fumando cocaína!


Na realidade esse comentário dela, direto e objetivo, não deixando margem para nenhuma réplica até que surtiu o efeito necessário, pois do meu lado, sempre que estive próximo de alguma droga, eu mesmo questionava a mim e aos outros: - É só o que falta!


Depois é que eu fui ver a visionária que era a minha mãe, ao prever que a cocaína fumada, chamada “crack”, seria o grande flagelo de nosso tempo.



Outra dica de minha mãe, ainda sobre mulheres (por que será que mãe adora alertar os filhos sobre mulheres? Será que elas sabem o que seus pobres e ingênuos meninos vão sofrer no futuro?) é que ela, ao constatar que eu era muito ansioso e apressado para conseguir as coisas, não sabendo esperar a hora certa, desta vez não previu e sim vaticinou, com uma praga típica de mãe:


- Quando você casar, meu filho, devido a essa sua pressa, sua mulher não pode usar calcinhas, pois você não sabe esperar!


Adivinhem!


O que a minha mulher poupa em calcinhas ela gasta em sapatos. Casei com uma centopéia das pernas arejadas.


Sérgio Lisboa.

















PAI-DE-SANTO NÃO ENTRA EM FRIA



Eu li numa dessas publicações jurídicas que a Justiça deu ganho de causa a um pai-de-santo por serviços de limpeza e descarrego prestados a um frigorífico.



O frigorífico havia contratado o profissional espiritual para os trabalhos em sua matriz e duas filiais ao preço de R$15.000,00 a mão-de-obra e R$ 1.800,00 para os materiais utilizados.


Não foram especificados os materiais utilizados, mas pelo preço cobrado e como se trata de um trabalho em um frigorífico, certamente foram usadas sedas francesas com cores quentes e muitas meias de lã uruguaias, para combater o pé-frio do negócio.



O dono da empresa alega em sua defesa de que o serviço não surtiu nenhum efeito, pois a sua urucubaca, além de não diminuir, ainda aumentou, pois a clientela deixou de comprar o seu produto devido ao forte cheiro de charutos e defumadores.



O pai-de-santo, por sua vez, alega em sua defesa que a energia negativa no local era muito forte, em função de tantas almas penadas rondando a empresa e tantos espíritos de bois, frangos, carneiros, porcos, eleitores e outros animais, que não aceitavam a sua desencarnação dizendo que ainda tinham muito o que pastar.


(Escrevi “eleitores” acima, mas quis dizer “leitões”).



Por uma questão de segredo de profissão, o pai-de-santo guardou o que presenciara para si, mas encontrou vagando por ali, espíritos de gatos que miavam se lamuriando porque ali não era o seu lugar. O dono do frigorífico, ruborizado, confidenciou ao pai-de-santo que havia diversificado o negócio, vendendo churrasquinho em frente à empresa, com carne vinda de um fornecedor duvidoso.



Dizem que o pai-de-santo pensa em ingressar com uma nova ação, visto que após esse serviço, em virtude da frieza das instalações, contraiu uma gripe que perdura há meses, já dando sinais de evoluir para uma pneumonia.



O dono do frigorífico, por sua vez, pensa em entrar com um recurso contra a decisão judicial, alegando que o juiz estaria impedido de julgar por concurso de interesses, uma vez que a sentença foi dada por meio de um “despacho”.


Sérgio Lisboa.

Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

O ESPÍRITO DA MATÉRIA

Por que a gente aprendeu tanta coisa ao longo da longa vida escolar?

Já foi dito por um grande mestre em educação que, se os alunos não conversam no recreio sobre o que acabaram de ouvir em sala de aula, alguma coisa está errada.

Aprendeu-se a dividir, mas depois a vida não perdoa quem não pensa só em somar.

Aprendeu-se sobre química, sempre numa visão matemática, somando-se os elementos, mas nada sobre ficarmos completamente a mercê de alguém, por pura química.

Sobre física nos disseram que dois corpos não poderiam ocupar o mesmo lugar no espaço. Vai ver que nunca fizeram amor.

Aprendeu-se sobre a história de grandes homens e conquistas, só mais tarde é que fomos descobrir que tudo não passou e até hoje não passa de ganância econômica.

Aprendeu-se a ler, mas não a interpretar.

Aprendeu-se a escrever, mas não o que é importante escrever.

Aprendeu-se a decorar ou memorizar e isso nos fez esquecer de interiorizar o conhecimento ou de assimilar a lição.

Não estou fazendo nenhuma crítica a um dos mais importantes agentes desse processo que é o professor, pelo contrário, ele também é uma vítima dessa ditadura que impõe uma enxurrada de carga horária e de disciplinas, cada vez mais distante da realidade em que vivemos.

De todas as coisas que aprendi na escola, talvez a mais repetida delas, tenha sido a tabuada, com suas multiplicações decoradas tipo, “dois vezes dois é igual a quatro”. Me lembro, como se fosse hoje, que o meu professor fez questão de frisar que era importante lembrar, pelo menos essa multiplicação: “dois vezes dois é igual a quatro”.

Talvez, como uma espécie de guardião de um “Código da Vinci” educacional, passado de mestre para mestre, a tabuada fosse o mais forte sinal do que a vida nos reservaria no futuro: verdadeiras “tabuadas” no lombo, que acabariam nos deixando literalmente de quatro.

Sérgio Lisboa.

Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

QUAL A SUA IDÉIA DE PARAÍSO?



No imaginário popular a idéia de paraíso é como aquele cenário dos “telletubbies”: Campos verdes, muitas flores, pássaros e coelhos passeando e seres alegres e saltitantes andando de mãos dadas como verdadeiros amiguinhos.



Uma vida linda, sem assaltos, sem Faustão, sem cólicas e sem imposto de renda.


Os nascimentos e as mortes surgindo à nossa frente com uma naturalidade sublime.


Você deve estar se perguntando, como assim nascimento e morte? Claro! Estamos falando de um paraíso aqui na terra, enquanto estamos vivos. Um cenário ideal de perfeita harmonia entre os homens e entre a natureza. Não o paraíso religioso onde não existem mais dor nem morte. O paraíso da boa vontade entre os homens e em vida.


(Eu só nunca entendi porque os “teletubbies” moram em iglus se lá é sempre primavera).



Outros dirão que não é esse paraíso que eles imaginam para si. O que eles queriam era um shopping center ao lado da casa deles, um carro com motorista nem que seja só para sair de uma garagem e entrar na outra e muita gente pobre e ordeira em volta dele, para morrerem de inveja de tudo o que ele tem e, ainda assim, não lhe arrancarem nada.



Um terceiro mais comedido e mais justo diria que o cenário ideal de um paraíso seria todos terem acesso a tudo o que gostariam e não faltasse nada para ninguém.


Desde que não quisessem ter bombas atômicas, pois para isso seria necessário algumas regras que seriam cobradas por...sei lá! Seria criado um órgão para definir e cobrar essas regras (olha o perigo aí, gente!)



Realmente não é fácil. Se definir o que é o paraíso já é difícil, o que dirá concretizá-lo. Mesmo assim, a gente não deve desistir da idéia de uma vida plena, com igualdade de direitos, sem necessidades não atendidas, sem sofrimentos, sem medos, sem ansiedades, sem programas de auditórios e sem campanhas políticas.



Como o meu paraíso ideal é parecido com o cenário dos teletubbies, vou treinando, desde já, a cumprimentar alguém quando chego e quando me vou, fazendo mais ou menos assim: Ooiii!! Tchaauuu!!


O duro desse meu paraíso é ter que dar aqueles pulinhos que eles dão. O resto é fácil.


Sérgio Lisboa.






Domingo, 22 de Junho de 2008

A ÚLTIMA FRONTEIRA

Teve um episódio da série Jornada nas Estrelas, o antigo, com Willian Shatner e Leonard Nimoy, em que um irmão mais afastado do Spock, tinha uma técnica em que ele arrebatava seguidores com uma coisa de magia que consistia em tirar a dor das pessoas, na medida em que elas lhe falavam sobre o que lhes doía no passado.

Mais ou menos o que os psicanalistas fazem hoje com a gente e, principalmente os pastores modernos que se proliferam tão rapidamente quanto a necessidade das pessoas.

Fale-me de sua dor, que a sua dor o libertará.

Quando alguém aceitava a sugestão e falava do que tinha engasgado em sua garganta e no seu peito, trazendo consigo uma mágoa e uma angústia tão peculiares a todos nós, ele repassava aquele filme diante da pessoa, dando-lhe a chance de mudar a sua frase naquele momento devastador, de mudar a sua atitude ao rever a sua patética atuação na única fala mais importante que a vida lhe dera e, como que por encanto, a pessoa se libertava, ao mesmo tempo em que se transformava, contraditoriamente num seguidor cego dos passos daquele libertador de sua dor.

Não muito diferente de como as coisas funcionam hoje.

Infelizmente, acho que precisamos urgentemente de guias, sejam eles espirituais, artísticos, políticos ou qualquer tipo que nos façam acreditar que é preciso acreditar que tem que ter alguém que nos faça acreditar, não importa em quê.

O capitão Kirk, o nosso herói, o homem que detinha em si mesmo, a última fronteira da razão, o equilíbrio e a coragem que, audaciosamente, nenhum homem jamais experimentou foi, naquele episódio, confrontado com o nosso personagem que tirava as nossas dores, que nos traria o alívio, que faria com que acreditássemos que um novo mundo é possível, e, se quiséssemos, em suaves prestações.

E, ao ser abordado pelo tal ser “iluminado”, esse disse para o nosso herói: “Fale-me de sua dor, que eu a tirarei e serás um homem livre!”

Foi quando o Capitão Kirk, respondeu como um penetra na festa da mesmice:

“Eu não quero que tires a minha dor! Eu preciso dela, pois é ela quem faz o que eu sou!"

E o homem foi embora.

Fico feliz em saber que não foi totalmente perdido aquele tempo em que eu e a televisão fomos confidentes.

Sérgio Lisboa.

Sábado, 21 de Junho de 2008

AMOR MAIOR QUE O TEMPO

Giancarlo e Marlúcia namoraram quando ela tinha dezesseis e ele dezoito anos.

Foi um namoro rápido, porém intenso.

Ela estava noiva de outro rapaz, mas se apaixonou por ele.

Por essas circunstâncias da vida, eles se separaram.

E nunca mais se encontraram.

Vinte e poucos anos depois, o destino os colocou frente a frente.

Estavam lá, Giancarlo e Marlúcia.

Ela separada e com dois filhos.

Ele casado e com três filhos.

Ela, surpreendentemente, confessou a ele que nunca o havia esquecido, que casara e se descasara, que tentou e desistiu, mas que nunca, nem por um instante, deixara de pensar nele e que nada deu certo em sua vida, pois tudo o que sempre quis foi ficar com ele.

Ele depois dela, casou com a primeira que apareceu e ficou até hoje.

Vinte e poucos anos depois.

Ele, que também nunca a tinha esquecido, estava num misto de alegria, surpresa e preocupação. É, preocupação.

Hoje ele estava casado. Era um homem comprometido.

O passado bateu à sua porta e o pegou de pijama e chinelos. Barba por fazer.

Ela começou a lembrar cada detalhe, cada instante, cada momento que passaram juntos, numa máquina do tempo maravilhosa, mas perigosamente estonteante.

Lembrou daqueles amassos na parede da escola, daquele perfume diferente que ele usava, que nunca mais tinha saído, da primeira blusa que ela esteve com ele.

Lembrou de cada intimidade, fazendo com que ele revivesse cada momento de sua juventude com aquela namorada que fora a mais inesquecível que ele tivera.

E agora? Pensou ele.

Foi um amor de juventude que nunca esquecera e que se materializava em sua frente, muitos anos depois, mas tão linda como sempre foi.

Ele também, não mudara muito.

Parece que ambos se guardaram como que parando o tempo para se reencontrarem.

Ela, livre e desimpedida, confessando seu eterno amor ali, diante dele e ele casado, comprometido e atordoado com aquela situação que os sarcásticos deuses do amor lhe aprontaram.

Ele então foi para casa naquele dia, vivendo aquela história mágica e ao mesmo tempo atordoado, quando a sua esposa lhe pergunta o que é que ele tem. Ele tomando uma coragem que nunca teve até então lhe diz: - Querida, estou sofrendo com um dilema!

Ela então, não deixando que ele continuasse, fuzila: - Dilema? Dilema é coisa de frouxo. Por isso é que eu tenho que decidir as coisas por aqui!

-Compra a máquina de lavar e esquece essa história de sair para pescar com os amigos!

Sérgio Lisboa.

Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

TE LIGA!



De todas as invenções do mundo, desde os primórdios, antes mesmo da invenção da roda, ou seja, desde a invenção do eixo da roda, a minha mulher é eternamente agradecida a uma só invenção e a um só inventor: Grahan Bell.


Ele mesmo! O homem que inventou a máquina de gastar sem sair de casa. O homem que inventou a máquina de brigar com a família a quilômetros de distância. O homem que inventou a invasão diária das tele-marketing. O homem que inventou o seqüestro-relâmpago praticado por um homem preso e acorrentado num presídio de segurança máxima. O homem que inventou um localizador de marido no happy-hour. O homem que inventou algo para facilitar a comunicação entre as pessoas que estão longe e complicar a comunicação para os que estão perto. O homem que inventou o telefone.



O telefone. O velho conhecido telefone.



Eu sei que hoje tem o MSN, o Orkut, o e-mail e tudo o mais que também aproximam os de fora e afastam os de dentro. Mas o velho telefone continua ainda como o grande vilão dos distanciamentos dentro das nossas casas. Seja fixo ou móvel.


Sim porque o problema não está na tecnologia do aparelho ou na forma como ele permite a movimentação, pois se tratando de telefonemas dentro de casa pode ser até o fixo sem fio.



Lá em casa é tão certo quanto notícia ruim do governo: quando saio e todos estão na porta sorrindo e abanando para mim, como um comercial de margarina da família feliz, e eu, quinze segundos depois de ter saído resolvo ligar para casa, adivinhem? O telefone está ocupado!



Essa semana o recorde foi superado e ficou em nove segundos. Eu tenho certeza que eles podem dar mais de si, no que diz respeito à velocidade do uso desse aparelho tão importante, mas que foi transformado em uma máquina de trocar banalidades.



Um amigo meu contou que esses dias pediu para a filha dele que falasse com quem quisesse, o tempo que quisesse, mas pelo amor de Deus, não usasse o telefone para trocar receita de bolo.


Foi quando ela interrompeu a sua ligação, se virou para ele, tapou com a mão a parte de baixo do telefone, virou os dois olhos para o teto e demonstrando uma impaciência digna de uma “funkeira”, fuzilou-o com uma AR-15:


- Pai, não estou trocando receita de bolo. Não sou mais criança. O assunto aqui é sério. Estou ajudando a Lurdinha, que está desorientada, a como fazer um aborto!


Sérgio Lisboa.




Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

EU, ROUBÔ

“The Trons” é uma banda de rock da Nova Zelândia, formada por robôs. Eles têm até um vídeo-clipe, cujo nome da música é "Sister Robot". Possuem também, até página na internet, que define o seu estilo como de influências do Velvet Underground e Yo La Tengo.

Os músicos-robôs são um tanto arredios com os fãs, mas seus empresários garantem que não é estrelismo e sim, que eles, por natureza, evitam relacionamentos mais sentimentais.

O que não difere muito dos roqueiros de carne e osso. O único problema é que a música, embora um tanto sem vida e muito repetitiva, ainda assim é muito melhor que muito banda por aí. No clipe, o tecladista com o rosto de um alto-falante, está vestido com uma camisa branca e uma gravata. E só. O guitarrista é um porta-casacos e seu rosto também é um alto-falante.

Eles não são robôs inteiros, com braços e pernas, como um boneco gigante, possuindo apenas um alto falante e alguns dedos metálicos, tanto para o teclado, quanto para a guitarra e a bateria toca sozinha. Mas mesmo assim a fábrica de mitos que o imaginário associado ao capitalismo industrial conseguem produzir, já elegeu o vocalista da banda, como os olhos mais lindos do cenário pop e o bumbum do tecladista o maior objeto de cobiça da última revista People.

Já foram flagrados em festas que são verdadeiros bacanais onde rola de tudo, desde jovens modelos de ipod e Mp7, até prostitutas mais experientes, tipo Windons 98, incluindo sessões de consumo de drogas mais pesadas como pó de silício e injeções de laser em seus circuitos.

Já há rumores, de um de seus integrantes, até de ter um caso com a própria placa-mãe, o que foi veemente desmentido pelos empresários.

Outro escândalo que não está sendo fácil desmentir é o do baixista que após anos de casamento com uma geladeira, não agüentando mais a sua frieza, resolveu ficar com alguém “mais quente” e tem sido visto freqüentemente aos beijos com um aquecedor. Por enquanto são apenas boatos.

Esse grupo estava pensando numa turnê para fazer shows aqui no Brasil, mas por enquanto, não tem nada confirmado, até mesmo porque as “raves” com seus sons “tecno” e as festas “funks” já são embaladas por robôs há muito tempo. Dizem as más línguas que até seus freqüentadores, com o tempo, estão todos se “robotizando”.

Talvez o melhor para eles conseguirem sucesso mais rápido por aqui, seja aproveitando o ano eleitoral e ser contratado para showmícios, até porque é a forma mais coerente do candidato tentar demonstrar uma emoção um pouco maior do que o artista.

Mas isso não é garantido.

Sérgio Lisboa.

Sábado, 14 de Junho de 2008

HOMOMILITARISMO

A tentativa do Exército Brasileiro de punir ou melhor, de fazer sumir os protagonistas de um romance gay de seus quadros, tem chegado a beira do ridículo.

A aversão, o preconceito, o embaraço, causam mais desdobramentos “trapalheônicos” do que qualquer tentativa mais equilibrada de enfrentar a situação.

A história nos mostra que em todos os lugares onde existe a clausura, o rigor, a disciplina irracional, a negação do individualismo, ali sempre residirá a contrariedade àquela imposição estabelecida.

O homossexualismo é um tabu tão grande em nosso país e seu preconceito está tão enraizado em nossa cultura que precisaremos de mais um milênio para que haja, de fato, algum avanço.

A própria mídia, como sempre, um prato cheio para os humoristas mais atentos, estampa em suas manchetes: “Sargento Gay foi torturado”, “Militar homossexual está preso”, etc.

Eles nunca dizem “Político ladrão consegue se reeleger” ou “Jornalista corrupto faz mais uma matéria tendenciosa”.

As acusações do exército em relação aos envolvidos no caso são risíveis. Os militares os acusam de alteração no uniforme, ocultar informações sobre o companheiro e ausência ao serviço. Se ocultar informações sobre o companheiro fosse crime, o presidente Lula devia pegar cem anos de prisão. Quanto à ausência ao serviço é só deixar um camburão na sexta-feira em Brasília.

Que o exército tem uma disciplina própria e uma legislação diferenciada, isso todo mundo sabe.

Só que essa instituição que, sem dúvida nenhuma é o baluarte, o estandarte, o bacamarte de nosso país, tem como responsabilidade a garantia dos poderes constitucionais, entre outros.

E a constituição não admite torturas, perseguições, preconceitos e cerceamento de defesa.

Ás vezes é preciso que uma minoria, para ter sua voz ouvida, não grite no maior microfone disponível, mas que toque uma melodia no mais afinado, caro e intocado instrumento exposto em um museu.

É mais difícil de ser arrancado de suas mãos, sob pena de danificá-lo e enquanto isso não acontece, sua música continua a ser ouvida por todos.

O único risco é que eles, inteligentes que são, vão acabar prendendo-o por tocar música em público, sem estar em dia com a mensalidade da Ordem dos Músicos.

Sérgio Lisboa.

ALIMENTOS SEXUAIS



A cebola e o alho ingeridos regularmente podem ser muito benéficos para o coração, uma vez que quem ingere esses alimentos acaba ficando com um bafo desgraçado, impedindo a aproximação de quem quer que seja, muito menos de um par romântico disposto a beijá-lo, o que lhe garante uma imunidade amorosa e, por conseqüência, não sofrendo das coisas do coração.



Ovos e tomates podem ser usados como atenuantes do stress, já que eles servem perfeitamente para ataques a políticos em comícios, exteriorizando a sua indignação com as atitudes desses cidadãos e liberando a bílis.



Laranjas podem ser usados como elemento motivador de auto-estima, pois dão uma sensação de que o indivíduo possui em seu nome, grandes valores em sua conta corrente. O problema é que essa sensação positiva, gerada por laranjas, dura muito pouco tempo e pode formar uma nova doença chamada SDS (Síndrome do Deslocamento Sucessivo).



Mandiocas em estado cru podem ser usadas como substituto sexual, atenuando algum eventual jejum e trazendo um certo alívio por um determinado período. A recomendação desse tubérculo é para o sexo feminino, mas o uso do mesmo fica a critério de quem melhor se adapta a dieta.



A casca da banana tem sido a grande responsável por uma melhoria de vida, segundo os ortopedistas. Ela, pelos tombos que gera nas pessoas e conseqüentemente suas inúmeras fraturas, tem aumentado às consultas a esses profissionais, gerando maior renda para eles e uma óbvia melhoria de vida para esses médicos.



Pepinos e abacaxis, além de mudarem a rotina diária, são recomendados para aumentar a atividade física, pois já está provado cientificamente que sempre que aparece algum deles, as pessoas saem correndo sem olhar para trás.



A maçã, muito lembrada como símbolo do amor, realmente tem esse poder de manter uma harmonia sexual entre os casais, principalmente os que estão juntos há muito tempo, pois segundo alguns casais entrevistados, ela garante uma distração para a esposa, enquanto esta estiver embaixo do marido.


Sérgio Lisboa.










Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

FRASES DE FILMES

Uma das coisas que mais me chama a atenção em um filme e não sai mais da minha cabeça, nem sempre são os cenários maravilhosos, a música envolvente, a fotografia deslumbrante, a atuação estonteante de um grande ator, nem mesmo um diálogo fantástico de um roteirista de primeira linha.

O que mais me chama a atenção em um filme e, geralmente em filmes banais, filmes de adolescentes, filmes de ação, aqueles filmes que não tem nenhum outro compromisso senão o de divertir, é aquela única frase, dita no único momento do filme em que os personagens não estão correndo, nem dependurados num abismo, nem salvando o mundo, enquanto palitam os dentes.

No filme de puro entretenimento e fantasia, “Superman”, o antigo, com o falecido Christopher Reeve, a Margot Kidder, personagem da Lois Lane, ao esperar a chegada do herói, que não veio naquela noite, revela: “como é triste ver o dia amanhecer, quando se passou a noite toda chorando”.

Não é uma frase assim tão profunda, mas nunca mais saiu da minha cabeça. Às vezes penso em rever esse filme só para reencontrar essa frase.

No filme “Indiana Jones e a Caveira de Cristal”, tem uma hora em que um personagem, referindo-se a um amigo comum que tinha morrido, diz para o Harrison Ford, o seguinte: “Chega uma hora em que a vida pára de nos dar para começar a nos tirar.”

Nunca tinha pensado a vida sob esse ângulo.

No meio de filmes tão banais, tão recreativos, tão leves, produzidos para dar risadas e trazer apenas alguns momentos de descontração, sempre acaba me marcando como uma mensagem mais forte, mais profunda, uma frase perdida (por acaso?) no meio de uma perseguição ou tiroteio de um filme de ação.

Muitas vezes essas frases podem até ter sido tiradas de um almanaque de farmácia ou de um livro motivacional que encalhou na livraria. Penso que, como esses filmes não tem nenhum compromisso com um roteiro mais elaborado, tanto é verdade que os roteiristas desses filmes nem vão à cerimônia do Oscar, a explicação deve ser outra.

Como nesses filmes o roteiro é a parte mais insignificante de todo o projeto, seus roteiristas escolhem a dedo uma única frase capaz de marcar um espectador mais sensível, que coincidentemente também gosta desse tipo de filme. É a forma deles mandar um recado para o mundo, dizendo que foram obrigados a escrever todo aquele roteiro ridículo, mas que, com aquela única frase, mostram a todos que seu potencial é muito maior.

Também é verdade que em um filme tão fútil e descartável, qualquer frase um pouco mais elaborada, soa como um achado poético.

De qualquer forma, sempre que sento para assistir a um filme de puro entretenimento, fico aguardando ansioso o momento daquele único diálogo, com aquela única frase, que vai me acompanhar pelo resto da minha vida.

Sérgio Lisboa.

Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

AVERSÃO A NOVELAS



Pintei um quadro que eu mesmo intitulei: “Aversão A Novelas”.


Resolvi pintar essa tela quando cheguei em casa, num final daqueles dias em que tudo o que precisamos é desabafar e conversar com alguém em quem confiamos para eles simplesmente te olharem e dizerem:


-Fique quieto que é o último capítulo da novela!



Pintar esse quadro foi a forma mais original e mais indignada que consegui para exteriorizar o meu repúdio, a minha indignação a essa verdadeira lavagem cerebral, a essa invasão de mentes, a essa massificação de pensamentos, a essa invasão de um Movimento Sem Terra, que tenta fazer uma redistribuição de áreas produtivas de seu cérebro.



Após terminar minha obra-prima, que levou o mesmo tempo do último capítulo da novela, que, diga-se de passagem, foi mais comprido que todos os demais trezentos e noventa e sete capítulos do ano, pude, finalmente, apresentar a minha mãe, para sua apreciação crítica, ao mesmo tempo em que esperava ao mostrar-lhe meu talento, dar uma lição do que é possível se fazer ao invés de perder seu tempo assistindo a coisas banais e sem sentido, como novelas.



Ela, então parou, e enquanto enxugava as lágrimas que derramou com a separação do casal de protagonistas e, principalmente de seu protagonista preferido, o ator Francisco Beltrão.


Apenas sorriu ao olhar para a tela, causando em mim, confesso, uma alegria e uma satisfação que nunca havia experimentado: a alegria de minha mãe por algo que eu havia produzido com minhas próprias mãos, sem interferências da televisão, de seus atores e diretores e, além de tudo, sendo uma obra de protesto pela massificação que quase havia engolido minha própria mãe.


Ela apenas disse uma frase, que para mim soou como a apreciação do próprio Leonardo Da Vinci reencarnado, me elevando ao seleto grupo dos imortais artistas plásticos de todos os tempos:


- Este morro com suas sombras me lembra algo familiar, disse ela.


- O quê ele te lembra minha mãe?


- Traços da pintura de Monet ou do maior mestre, Van Gogh?


- Não, meu filho! Parece a fisionomia de um ator de novelas.


- Já sei é a fisionomia do ator Francisco Beltrão!


Sérgio Lisboa.



Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

O DONO DA FILA

Bem cedo ele já estava na porta do órgão público.

Conseguiu, finalmente ser o primeiro.

Até que enfim ele seria atendido, depois de meses de espera.

Quantas vezes havia chegado na fila e ser surpreendido com cento e vinte pessoas na sua frente, para um número de quarenta fichas.

Ia embora desiludido e pensando como seria o desfecho daquela situação com as oitenta pessoas que não iriam conseguir uma ficha.

A sua chance seria somente se, um dia, ele conseguisse chegar bem cedo, na frente de todo mundo.

E foi o que ele fez.

Nem dormiu naquela noite e no meio da madrugada ele já estava acampado em frente à porta do prédio.

Aquela porta que era tão cobiçada. Aquela porta que era tão distante de um mero ser humano. Aquela porta que era tão intransponível, que parecia até a porta do paraíso.

Lá estava ele, o primeiro e único homem que havia chegado àquela porta, naquele dia.

Como um desbravador de continentes perdidos, de planetas, nunca dantes explorados, lá estava ele.

O primeiro e único.

O escolhido.

O dia já ia amanhecendo quando um outro concorrente foi chegando com aquele olhar para ele de surpresa. Aquele olhar de quem se pergunta: como ele conseguiu essa façanha?

Mais outro foi chegando, com aquele mesmo olhar.

E mais outro. Para todos eles ele dava uma virada rápida de pescoço, um suspiro e levantava a cabeça como faziam os gladiadores sobreviventes do Coliseu, com um olhar firme de superioridade, fixo para o céu.

Ele era um vencedor!

Até que se apresentou um adversário a altura.

Um fura-filas. È o pior adversário para quem enfrenta uma maratona em uma fila: um fura-filas.

O “modus operandi” deste profissional do caradurismo sendo demonstrado ali, ao vivo, diante dele, sem cortes ou efeitos especiais.

Chegou com a cara séria, com os passos firmes e foi direto para a porta, lá na primeira vaga da fila.

Realmente o cara era bom. Um profissional de respeito. Só que ali estava ele, o cara que não ia permitir que isso fosse feito bem nas suas barbas.

Pegou o fura-filas pelo cangote, puxou com força e mandou ele lá para o fim da fila.

O fura-filas, é lógico, tentou argumentar, mas ele, que não era bobo, não deixou ele sequer abrir a boca (sabia de seu poder de persuasão) e empurrou-o lá para trás.

O destino, sempre cínico e debochado, desenhou para ele, naquele dia, que ninguém apareceu para abrir a porta.

Seria feriado? Seria greve dos funcionários?

Foi quando, chegando quase ao fim da manhã e todos já, mais do que indignados, resolveram até, não tendo mais paciência nem voz, deixar (pasmem!) o fura-filas falar.

Ele, com aquela empáfia de um verdadeiro fura-filas profissional, apenas disse:

- Eu sou o atendente deste órgão público e o responsável pela chave e abertura do mesmo.

Eu apenas cheguei pela manhã para abrir e atender a todos vocês, mas fui jogado para o fim da fila, sem deixar que eu falasse.

Como já terminou o turno de atendimento, eu peço que os senhores voltem amanhã, bem cedo, para pegarem suas fichas.

Sérgio Lisboa.

Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

APRENDI COM UM MENDIGO



Certa vez, numa noite muito fria de inverno, estava parado em um ponto de ônibus, quando um mendigo que estava acomodado atrás da parada, com sacos e bugigangas em volta dele, parecendo um acampamento, se aproximou de mim e me pediu fogo para o seu cigarro. Um toco de cigarro, na realidade.


Eu tinha comigo uma caixa de fósforos e alcancei para ele. Ele, com muita elegância, apesar de tremer muito, acendeu sua bagana e devolveu-me a caixa de fósforos. Sensibilizado com aquela situação que presenciara, sem sequer pensar, disse a ele que poderia ficar com a caixa de fósforos, que eu a daria para ele.


Ele voltou para o seu canto sem me dizer nada e eu continuei ali parado, esperando o ônibus.



Qual não foi a minha surpresa quando ele surgiu a minha frente, com as duas mãos, que estavam pretas de muito sujas, assim como as unhas, carregando em forma de concha, restos de verduras, retalhos de mortadelas e muitos legumes e, estendeu as duas mãos para mim e disse:


- Toma! Leva para casa para você fazer uma sopa!


Surpreso com aquela atitude e, ao mesmo tempo sensibilizado pelo espírito de gratidão e generosidade dele, agradeci dizendo, com todo o cuidado, que não podia aceitar.


Ele deu um sorriso de quem tinha cumprido o seu dever e um certo alívio por ter ficado com um pouco mais de alimento para o dia seguinte.



Essa história sempre me vem à mente como uma grande lição que aprendi em minha vida.


Daquelas histórias mágicas que não tem nenhum outro personagem como testemunha, numa noite fria, parecendo aqueles cenários criados especialmente para encenar uma fábula.


A moral da história, para mim, é que sempre temos alguma coisa para dar e, mais do que isso, é preciso retribuir as dádivas que recebemos, por menores que sejam.


Dar e retribuir, reconhecer e agradecer, ajudar e ser ajudado são atitudes que parecem esquecidas num mundo onde todos se acham no direito de só receber, de só exigir, de só ganhar, de só levar vantagem, do “ter” superando o “ser” do “ganhar” superando o “dar”, a qualquer custo.


Aprendi uma grande lição com um mendigo? Não!


Aprendi uma grande lição com um grande ser humano.


Sérgio Lisboa.



Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

BATEDORES DE CARTEIRA

Uma das atividades mais antigas do mundo é a do punguista, do batedor de carteiras.

Eles andam para todo o lado, mas principalmente costumam atuar em grandes aglomerações. Ali é que é o seu habitat natural. Onde tem muita gente reunida e desprevenida de cuidados, não de dinheiro.

Seja em festas, shows, transportes públicos ou simplesmente caminhando em centros urbanos.

O mais incrível desses meliantes que podem ser, homens ou mulheres, é que adquiriram algumas apuradas técnicas de evasão tanto dos pertences quanto de si mesmos, em caso de uma ação mal sucedida.

Num desses ataques de um punguista solitário a uma mulher, também solitária, junto a uma parada de ônibus que estava cheia de gente, naquele horário, ele decidiu enfiar a sua mão dentro da bolsa que ela carregava pendurada em seu ombro.

Quando ele colocou a mão na bolsa dela, ela pressentiu e agarrou firme a mão dele. Foi quando, de forma surpreendente, como um verdadeiro ator do mais conceituado teatro, ele puxa a mão que ela agarrava e grita, ao mesmo tempo em que já sai em disparada para o lado oposto:

- Eu já te falei que não te quero mais!!!

Todos, que até então não haviam suspeitado de nada, passaram a olhar para ela com aquele olhar de condenação, com aquele olhar de quem reprovava uma pessoa que não sabe o seu limite, de uma pessoa desequilibrada que não assimila nenhuma perda e que corre atrás de um homem, sem o menor amor-próprio.

Nessas horas a vergonha conseguiu superar o seu medo e acabou engolindo a sua voz, não lhe deixando forças para dizer algo que seria simples em qualquer situação: que era gritar ou pedir socorro. Cada segundo que ela levava para se recompor da surpresa, da atitude do ladrão, parecia horas dificultando ainda mais, a sua iniciativa de dizer que ele mentira e sim que ela estava sendo assaltada.

E, ao invés dela comemorar que não fora roubada, teve que amargar a humilhação de ser rejeitada na frente de um monte de estranhos.

O olhar de reprovação das pessoas, misturado com o de decepção, por algo que não fizera, ficou marcado em sua retina como algo mais traumático do que qualquer assalto.

Sérgio Lisboa.


Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

A AMAZÔNIA É UMA BOA ZONA

Uma reportagem publicada no jornal americano "The New York Times" afirma que a sugestão feita por líderes globais de que a Amazônia não é patrimônio exclusivo de nenhum país está causando preocupação no Brasil. O jornal diz que vários líderes internacionais estão declarando mais abertamente a Amazônia como parte de um patrimônio muito maior do que apenas das nações que dividem o seu território.

Obviamente o governo brasileiro não ficou muito satisfeito com essas declarações e prometeu tomar medidas drásticas para a proteção de seu território e a manutenção de sua soberania, já encomendando milhões de quilômetros de arame farpado, para cercar a região, deixando o setor siderúrgico ouriçado. As madeiras para o cercamento, por uma questão de logística e de custo, virão de madeireiras clandestinas da própria Amazônia. Outra medida foi dar um ultimato para os exploradores de todos os pontos do planeta que dizimam a flora e a fauna da região, dando-lhes, no máximo, noventa e nove anos para saírem de lá, sob pena de multa de cento e vinte reais, paga em dez vezes.

Enquanto não põe em prática essa estratégia de proteção à região, o governo brasileiro está pensando em delegar para os americanos o direito de escolher e credenciar quais os cientistas internacionais e ambientalistas que podem entrar nessas áreas, e quais companhias podem explorá-la.

Apesar disso, o presidente discursa pelo mundo afora, críticas sobre mudanças climáticas e desmatamentos, perdendo-se na contradição de não conseguir controlar um milésimo da região amazônica, enquanto é o embaixador mundial pela utilização de recursos energéticos vindos da terra, fingindo preocupação com o futuro do planeta.

Na verdade essa preocupação do Brasil em não permitir haver interferência externa em seu território, especialmente a Amazônia, até que é interessante, mas fica parecendo mais a história do pai que, querendo que a filha case virgem, enquanto escolhe o futuro marido para ela, deixa a menina se virando num prostíbulo.

Sérgio Lisboa.

POUCOS TÊM MUITO

Dez por cento da população brasileira detêm setenta e cinco por cento da riqueza nacional.

A gente passou um bom tempo na escola aprendendo como dividir, como fracionar e também o sentido humano de repartir com igualdade todas as nossas tarefas e pertences.

Depois que crescemos nos deparamos com essa realidade.

Como é que vamos falar de ética, de igualdade, de bondade, de generosidade, fraternidade, de sanidade, com uma realidade numérica dessa magnitude nos assombrando.

Já não chega aquelas revistas especializadas em dizer quanto aquele personagem famoso ganha por segundo, se dando ao luxo de comparar com o fato de que, a cada vez que o famoso pisca o seu olho, ganha mais do que você ganhará por toda a sua vida.

Não vamos ser simplistas e acreditar que isso pode ser mudado ou fazer discursos panfletários contra os ricos e contra a má distribuição de renda.

Muitos fatores contribuem para isso e os desvios e erros estão divididos na mesma proporção que a riqueza, só que de forma invertida, ou seja: a grande maioria absoluta pobre é sempre considerada, por eles (os ricos), como os únicos responsáveis por essa concentração de renda desumana. E a maioria pobre acredita nisso e repete isso.

A verdade é que enquanto houver monarquias, castas, oligarquias, nepotismos, monopólios, grupelhos, apadrinhamentos, etc., sempre haverá distorções e alguns tendo mais do que outros.

Não basta apenas invocar a questão histórica dizendo que sempre foi assim ou até mesmo a questão genealógica de que uns, mesmo que começassem todos do zero, acabariam sempre tendo mais do que outros por seu tino monetário e, principalmente por sua abdicação de prazeres consumistas de que muitos não abrem mão.

O Brasil é um país, já constatado por números, que possui o maior abismo entre quem têm mais e quem têm menos. Esse abismo é que constrói todos os outros abismos que somos obrigados a ver e conviver.

Esse abismo é que constrói o fosso que separa a monarquia da plebe. A cadeira numerada, da geral.

O corredor do hospital úmido, do quarto com tela plana. A prisão mofada da viagem ao Caribe.

Ninguém nasce disposto a fumar crack.

Ninguém vai para a cama dizendo “vou botar no mundo alguém sem futuro.”

Quando nós lemos que tão poucos têm tanto, enquanto tantos têm tão pouco, a primeira idéia que nos vêm à cabeça é: quero entrar nesse grupo que tem tanto. Seja pela porta da frente, pela porta dos fundos, pelo telhado, dentro do latão de lixo, indicado por alguém ou até com um trabuco na mão.

Enquanto pensamos assim, não conseguimos, nem por um momento pensar em porque é assim.

E enquanto não conseguirmos parar para pensar em porque é assim, vamos celebrando a alegria dos outros e incutindo em nós mesmos que, infelizmente, nascemos para sofrer.

Só quando temos uma discussão familiar, é que essas coisas ficam escancaradas a nossa frente e a atitude mais coerente é encher a cara e jogar, um no outro uma panela vazia.

Eu sugiro fazer amor e escrever poesia. Como sempre se fez.

Sérgio Lisboa.

Domingo, 18 de Maio de 2008

OBSCENIDADES

No Afeganistão, um homem-bomba, vestido com uma “burca”, uma espécie de veste que só as mulheres usam naquele país, detonou uma bomba que levava consigo e matou mais de vinte pessoas.
O Presidente do Afeganistão considerou uma verdadeira “obscenidade” a atitude do terrorista.
Explico: O Presidente do Afeganistão considerou uma obscenidade não a explosão e o morticínio, mas o fato de usar uma veste feminina para conseguir o seu intento.

Num primeiro momento, essa preocupação do Presidente Afegão, somente com a falta de ética do terrorista, usando de um artifício maquiavélico que é travestir-se de mulher para cumprir uma simples missão de rotina, que era chamar a atenção dos líderes de ambos os lados, matando uns míseros vinte seres humanos, pareceria tragicamente irônica.
Mas, na realidade ela nos mostra de forma bastante elucidativa como as pessoas vêem de forma diferente as mesmas coisas que para qualquer um seria um princípio básico: o inequívoco e inestimável valor dado à vida.

Não se discute mais o ato terrorista de carregar em seu corpo uma bomba, que além de tirar a própria vida, leva consigo dezenas de pessoas inocentes, para conseguir, no máximo, chamar a atenção e insuflar ainda mais o outro lado, para repetir a mesma atitude com outras dezenas de pessoas.
Discute-se a tradição, a religião, o direito adquirido, a “milenaridade” de uma postura, a manutenção de dinastias e a preservação do “status quo”, sempre permeado pela riqueza material e pela posse de terras e de homens.

Assim como lá, nós sofremos o mesmo aqui. Quando ficamos à mercê de decisões de homens-bomba, que decidem nosso futuro quando menos esperamos, com suas decisões políticas e sociais de forma bombástica, que irão definir o nosso futuro e dos nossos filhos.

Assim como lá, aqui, discute-se a tradição, a religião, o direito adquirido, posturas atrofiadas, manutenção de dinastias e preservação do que está instituído há séculos e não a forma arrasadora com que será implementada a sua estratégia.

A diferença daqui para lá é que, pelo menos lá, eles não admitem obscenidades em seus atos para conseguirem seus intentos.
Sérgio Lisboa.

Domingo, 11 de Maio de 2008

DESLUMBRAMENTO

Participei de uma palestra em que um dos maiores especialistas em engenharia de tráfego e acidentalidade, sendo constantemente chamado para dar seu parecer sobre as possíveis causas de acidentes, ao contar um episódio sobre um acidente em que um ônibus saíra fora da estrada, veio com uma conclusão no mínimo curiosa: o acidente aconteceu por deslumbramento do motorista.

Isso mesmo! Deslumbramento!

Ele contou que uma de suas técnicas é estar no local no mesmo horário e condições climáticas do dia do acidente.

Aquele acidente havia acontecido às sete e meia, quando o sol estava aparecendo bem de frente para o motorista, no horizonte, e era um lugar onde o sol ficava ainda mais bonito, como um quadro pintado a nossa frente.

O próprio especialista confessa que esqueceu por alguns instantes o seu ofício e ficou a contemplar aquela maravilha da natureza.

Concluído o seu relatório, lá estava grafado no papel como causa provável : “Deslumbramento do motorista com o cenário do local”.

Não sei dizer se o motorista foi condenado por essa falha inadmissível para um ser humano, que é se deslumbrar com a natureza, mas de qualquer forma foi encontrada uma causa para o acidente.

Eu acho que poderia usar esse episódio para outras situações em que falhamos tais como:

Se chegar atrasado ao serviço posso alegar extasiamento com o sonho maravilhoso que estava tendo.

Se falo mal do governo, posso alegar aturdimento pelas decisões deles.

Se chego tarde em casa, e a minha mulher briga comigo, posso alegar assombramento constante.

Se brigar com a minha sogra, posso alegar falha no encantamento (da serpente).

Se brigo com o meu chefe posso alegar ofuscamento do meu brilho.

Se sou flagrado olhando para os seios de uma mulher, posso alegar deleite.

Quanto aos governantes, para qualquer caso em que são surpreendidos em alguma situação embaraçosa, têm uma gama muito grande de alegações tais como: marasmo, debilidade, fraqueza, apatia, paralisia, fascínio (por enriquecimento), estagnação e, a mais utilizada delas, o desconhecimento.

Sérgio Lisboa.

ESPERAR QUEM NÃO VEIO



Uma das coisas mais patéticas, tristes, melancólicas, solidariamente constrangedoras, é a espera de alguém que não veio.



Todas aquelas expectativas, todo aquele aparato, todo aquele preparo, toda aquela dedicação, nunca antes feita, nem para nós mesmos, ficam ali a nos olhar como que mostrando o quanto somos extremamente dedicados e detalhistas para construir nossas próprias decepções.



Quando ficamos esperando somente um telefonema ou um encontro em algum lugar da cidade, ainda é um trauma um pouco menor do que quando preparamos um jantar especial, cheio de detalhes, chegando às minúcias de colocar até perfume na maçaneta da porta.



Aí, o prejuízo sentimental é bem maior.


Ficamos com a sensação de que não somos importantes, de que estamos sempre disponíveis e, por isso mesmo, somos descartáveis.



Aquela mesa de jantar maravilhosa vai desbotando à nossa frente, as flores murchando aceleradamente, parecendo uma mesa de jantar de um navio naufragado, no fundo do oceano, misturada com lama, ferrugem e tristezas.



A gente só lembra de um momento desses quando nós somos as vítimas desse abandono, dessa descortesia, dessa desconsideração.



Muitas vezes, talvez, tenhamos feito para alguém, essa mesma coisa que tanto detestamos, tido essa mesma postura, marcando alguma pessoa, um dia, com o ferro quente do descaso e do esquecimento.



Seja sem intenção, apenas porque surgiu um imprevisto, seja por deliberada vontade de fazer alguém não se sentir bem.


O sentimento de quem fica a esperar é muito duro.


Muitos tiram isso de letra e se sentam à mesa e jantam sozinhos, mais felizes ainda, por não ter que repartir a sobremesa.


Eu considero a melhor forma de encarar uma situação dessas para não se deixar afetar muito por comportamentos das outras pessoas e manter sempre, a auto-estima elevada.



Se alguém, um dia te der um “bolo”, enfie uma vela nele (no bolo) e comemore mais uma oportunidade de ficar consigo mesmo e, quando for cortar a primeira fatia, não se esqueça de fazer um pedido: que cada “bolo” que levar nessa vida sirva para comemorar a mais perfeita sintonia de amor e dedicação que conhecemos, que é a que temos por nós mesmos.


Sérgio Lisboa.





Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

A FOTO DO BRAD PITT NO BOLSO



Quando eu era menino, eu ouvia dizer:


“Homem que é homem, não vai ao cabeleireiro e sim, no barbeiro!”



Aquilo sempre me martelou a cabeça e, apesar disso, eu sempre achei que o cabeleireiro era o barbeiro de última geração.


Por isso, eu sempre ia a um cabeleireiro e sempre dizia o jeito que eu queria que fosse o corte do meu cabelo, e todos eles, sem exceção, me diziam: “Deixa comigo!”


O que isso significava? Ficava pior do que estava.



Um dia, depois de muito penar por vários cabeleireiros procurando um corte de cabelo que eu mais gostasse, ou o que é melhor, o que mais as outras gostassem, acabei tendo que tomar uma atitude mais drástica.



Resolvi levar no bolso um modelo de corte de cabelo que eu julgava ser o mais adequado para mim.



Esse modelo era retirado de uma revista de moda, aquelas mesmo em que os modelos fotográficos, eram uma mistura de príncipes nórdicos com corpos apolíneos.



Sempre que eu mostrava para o cabeleireiro que eu queria ficar igual aqueles caras da foto, eles sempre vinham com aquela mesma infame piadinha: “Só se nós fizermos uma plástica!”



Apesar de eu conseguir passar por esse teste inicial de paciência sacerdotal, estando disposto a enfrentar o mico que é tirar do bolso uma foto do Brad Pitt e dizer que eu quero um cabelo igual e, geralmente quando acontecia isso, o salão estar cheio de fofoqueiras (apesar de ser comum) e, justamente naquele dia, todos os adeptos da academia de jiu-jitsu, que fica ao lado do salão, resolverem cortar os cabelos juntos (coisa de bichonas), e te olharem como você fosse um anabolizante vencido, o resultado final (adivinhem!) foi um desastre.



Os cabeleireiros nem olham para o que você pede e muito menos para alguma foto que você leva ou que tem no catálogo. Eles apenas dizem “ok” e mandam ver na única técnica que eles aprenderam que é a de terminar o mais rápido possível, sem tirar a atenção da novela das duas que está passando na televisão.



Sem falar no assunto que faz eles largarem a tesoura a cada trinta segundos, que é comentar a separação da Lurdinha com o Marcos para ficar com a Neiva.


- Não me conta! Logo a Neiva que nunca depila o sovaco!



Tudo isso acontecendo e você ali. Vendo seu cabelo ser tosquiado, sem critérios, sem um acompanhamento psicológico. Isso mesmo!


Você tinha uma identidade antes de se sentar naquela cadeira de torturas, antes de entrar naquela casa dos horrores.


Dependendo do “profissional”, você sai da cadeira uma outra pessoa. Dá pena de ver seus amigos lhe evitando, olhando para você como se você tivesse trocado de sexo, como se tivesse votado no Lula.



Mas o pior é quando você sai de lá desiludido, com o cabelo parecendo uma mistura de trilha de rato com porco-espinho e, por causa disso, acaba tendo um mal súbito e desmaiando na calçada.



Quando as pessoas param ao redor de você para tentar socorrê-lo e procuram em seus bolsos alguma identificação ou um número de telefone e se deparam com uma foto do Brad Pitt no seu bolso.


Nesse caso, o melhor mesmo é dar um suspiro e dizer: “Um homem desses não é para fazer a gente desmaiar, santa?!”


Sérgio Lisboa.








Domingo, 4 de Maio de 2008

EU QUERIA PERDER O MEDO

Eu queria perder o medo de tentar.
Eu queria perder o medo de inventar o futuro.
Eu queria perder o medo de ser o que realmente sou.
Eu queria perder o medo de tentar atingir uma condição sublime.
De me desapegar.
De deixar o outro voar.
De viver com base naquilo que realmente me importa.
De acreditar que posso ter o controle de minha própria vida.
De ser paciente.
Eu queria perder o medo.
De resolver tudo aquilo que está mal resolvido em meu coração.
De ter coragem.
De ir em frente.
Eu queria perder o medo.
De ser despido de orgulho.
De não esperar o fim para descobrir as coisas que eu gostaria de ter feito.
De ter um objetivo.
De viver sem sentido.
De pensar que ainda posso mudar o meu futuro.
De me reunir mais com minha família.
De adversidades.
De oportunidades.
Eu queria perder o medo.
De procurar a felicidade dentro de mim e não dentro do outro.
De felicidade.
De liberdade.
De descobrir as causas de meus sentimentos e emoções.
De assumir o meu papel que é único no mundo.
De fazer perguntas e procurar respostas.
De ser bem sucedido ou não.
De evitar o conflito com quem amamos.
De evitar odiar com quem nos conflitamos.
De mudanças.
De dizer adeus.
De coisas importantes.
De dizer que amo.
De desapontar.
De perder.
De me iludir.
Eu queria perder o medo.
De me desculpar.
De não me culpar.
Eu queria perder o medo de acreditar que não preciso nunca mais sentir medo.
Eu queria perder o medo de encontrar a paz.
Eu queria perder todos os medos que vivem em meus pesadelos e encontrar todas as alegrias que vivem em meus sonhos.
(Extraído do tanto que se lê na Web)
Sérgio Lisboa.

A PUREZA DE UM BALÃO



Padres acusados de pedofilia já não é novidade e bem que esse padre voador, que sumiu no mar, ao reunir um grande número de balões de festa para tentar voar com eles, usando um ícone da fantasia infantil, serviria de forma simbólica para redimir um pouco os colegas de batina.



Eu li que ele já havia sido expulso de um curso de vôo livre, por indisciplina. Eu sempre imaginei que a disciplina era o básico, seja para uma ordem religiosa ou para uma atividade técnica e perigosa como a aviação.



Pobre das crianças. Hoje estão cercadas de traumas cada vez mais fortes. De serem jogadas pela janela, de padres que levam seus balões, de pornografia infantil.



Eu acho que toda a criança sempre quis saber onde vão parar os seus balões que o vento arrancou de suas mãos.



Um padre resolveu fazer esse teste em nome das crianças.


Foi embora, levando consigo nossas fantasias, nossos sonhos, nossas dúvidas, nossos balões.



Qual a razão prática de alguém querer ter conseguido bater o recorde de vôo com balões de festa.



O próximo recorde a ser batido talvez fosse o de salto de pára-quedas só agarrado ao chapeuzinho de aniversário?



E o recorde de travessia sobre um precipício caminhando sobre uma “língua-de-sogra”, movida a compressor de ar?



Poderia ser a travessia do atlântico em cima de uma bandeja de brigadeiros?



Quem sabe o recorde de tempo de permanência sem respirar com a cara enfiada dentro de um bolo?



Também o recorde de distância percorrida, caminhando sobre velas de aniversário acesas, daquelas que sempre reacendem?



Quando as crianças forem a algum parque de diversões ou a uma festa infantil, passarão a olhar com outros olhos para os balões de festa. Elas sempre lembrarão que eles podem levá-las para bem longe e nunca mais voltar.



E quando avistarem, a partir de agora, um padre, os vendedores de balões estarão proibidos de vender para eles, sob a acusação de incitação ao suicídio.



Fica dessa experiência do padre voador, uma indagação que se mistura com a devoção e bondade de um sacerdócio com a pureza de uma fantasia infantil que representa os balões:



Se essa menininha que foi jogada pelos pais pela janela, ao menos tivesse em suas mãos um balão de festa?


Sérgio Lisboa.








Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

O QUE É FELICIDADE?

A coisa mais procurada, perseguida e definida como o grande presente que queremos da vida se chama “felicidade”.

Todos querem ser feliz. Todos procuram a felicidade.

Mas, afinal, o que é a felicidade?

A felicidade do fabricante de cigarros é um número cada vez maior de viciados dispostos a morrer em nome do lucro da empresa.

A felicidade do agente funerário é um aumento no número de óbitos, seja por causas naturais ou não.

A felicidade do político é com a desinformação do eleitor e seu conseqüente nível cultural aprisionado a um assistencialismo aviltado.

A felicidade do catador é um lixo cada vez mais robusto e variado para ele se deliciar com os restos dos outros.

A felicidade do jovem é uma lanchonete globalizada e um beijo roubado, sem saber que se não tiver sorte, nunca mais fugirá de nada globalizado nem de coisas roubadas.

A felicidade da criança é um brinquedo que a loira do programa infantil disse ser vital para suas vidas e que o avô, deixando de tomar um de seus remédios, também vital para sua vida, poderá adquirir o brinquedo para ela.

A felicidade do comum é um programa de auditório, seja o milenar “Silvio Santos” ou o “ridículamente moderno, “Pânico”, cujo título, quero crer, foi criado com um último sopro de lucidez, legando para a posteridade o verdadeiro sentimento que viria tomar conta de todos os que assistem a essa maravilha.

A felicidade do presidiário é uma comida quente, por um só dia, pelo menos, e poder dormir com os dois olhos fechados, nem que seja por uma noite.

A felicidade do faminto é um prato com um bocado de comida, sorrindo para ele e só para ele, sem larvas.

A felicidade para o infeliz é ver mais gente não conseguindo mais ser feliz e ver cada vez mais gente sofrendo e chorando.

O governo pagou uma pesquisa para saber como o povo brasileiro se sentia com relação à felicidade.

O resultado foi que 75,5% dos brasileiros se consideravam felizes.

O interessante é que somente 28,0 % dos entrevistados acham que o povo brasileiro é feliz.

Para entender melhor, a maioria se considera feliz, mas acha que os outros não são felizes.

Quando a gente se sente feliz, mas acha que os outros não são felizes, só tem uma explicação: ou os outros não têm inteligência emocional ou não conseguiram ainda uma boquinha no governo.

Sérgio Lisboa.

Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

ARREMESSADO PELA JANELA

Eu fico pensando o que é capaz de fazer o ser humano com sua inteligência, força de vontade, capacidade de transformação e de adaptação.

Todos os caminhos estão abertos, os que levam para uma melhoria geral, uma evolução espiritual, uma vitória da mortalidade contra a imortalidade, da eternidade contra a finitude e outros que levam para o lado oposto, para uma decadência constrangedora, para um abismo escuro e assustador.

Qualquer um que já tomou uma taça de vinho um dia, ou qualquer alucinógeno abridor de mentes, ou mesmo sem nada disso, ousou pensar diferente do que está estabelecido, pelo tempo ou pela força, contestam o que é o bom e o mau, o que é o certo e o errado, o que é pecado ou não.
Contestar é preciso, abrir a mente é imperativo.

Me perdoem os filósofos. O dualismo ingênuo era mais fácil de assimilar.

Houve um tempo em que se era ou do bem ou do mal.
Ou se era bandido ou se era mocinho.
Ou se era da luz ou das trevas.

O mundo chegou a um novo tempo.
O tempo em que tudo é possível.
Qualquer notícia, hoje, por mais inverossímil, por mais fictícia, não nos causa impressão, pois tudo no mundo moderno é possível de acontecer.

Se é noticiado que um homem vai conseguir dar a luz, bocejamos diante da televisão.
Se lemos que Jesus nunca existiu, simplesmente mudamos para um canal de desenho animado.

Minha mãe, com um conhecimento psicológico de causar inveja a qualquer especialista, sempre que eu e meus irmãos brigávamos por algum brinquedo ela pegava esse brinquedo, quebrava e jogava pela janela do edifício em que morávamos, deixando todos nós estupefatos, a olhar lá para baixo, com o choro trancado e vendo o brinquedo destruído e espatifado na calçada. A briga cessava na hora, pois a razão da mesma não mais existia.


Não basta apenas ter bigode e chegar a uma certa idade para ter filhos. É preciso uma maturidade de caráter e um grau de sensibilidade divinos para enfrentar essa tarefa, que infelizmente muitos não têm, fazendo mais por uma imposição social ou o que é pior, para a preservação da “linhagem”.

Ainda bem que eu vivi numa época em que só os meus brinquedos eram arremessados pela janela do edifício.
Sérgio Lisboa.

Sábado, 26 de Abril de 2008

ABORTAR A EUTANÁSIA

Os holandeses estão preocupados com a sua liberalidade, tão conhecida mundialmente, entre outros motivos, por ocorrências de assassinatos terroristas, que eram incomuns, pelo grande afluxo migratório e pelo aumento no comércio de drogas, acima da quantidade permitida.

Os prostíbulos legais, os cafés, onde a maconha e o haxixe são vendidos para qualquer um, a legalização do aborto e da eutanásia e o casamento gay, são instituições legalizadas naquele país.

O governo holandês já está pensando em algumas restrições para essas atividades e posturas.

Na Holanda maconha e haxixe são consideradas drogas leves e o álcool droga pesada e a preocupação com o fechamento destes cafés, onde é permitido adquirir uma quantidade pequena de maconha e haxixe, é que essa venda passe para as ruas.

Há um desconforto em torno da globalização que socializa, também, peças defeituosas e inúteis, tanto de produtos quanto de pessoas.

O país, até então, símbolo da liberalidade e que mantinha tudo sob controle, está agora, revendo suas posições e preocupado com a perda do controle de sua situação.

Num país onde é permitida a venda e o consumo de drogas, quando alguém de fora se intromete e passa a aumentar a oferta, criando um mercado negro para algo permitido, visando o lucro, faz a gente acreditar que a história bíblica de Adão e Eva não são balelas.

Mesmo num mundo onde a permissividade mais absurda fosse possível, ainda assim, alguém viria propor uma distorção e uma quebra da regra, uma mudança no estado das coisas, seduzindo, por exemplo, com a origem da liberdade (alegando ser o aprisionamento) e visando sempre o ganho material.

O que chama a atenção é que, enquanto aqui no Brasil, nem sequer cogitamos debater assuntos como aborto e eutanásia, lá na Holanda o pessoal está pensando em dar uma diminuída nestas mortes provocadas pelo Estado, como quem diminui um limite de velocidade no trânsito.

Aqui o aborto e a eutanásia não são permitidos legalmente, mas instituídos primando pela utilização do princípio da economicidade, na forma mais maquiavélica: nossas crianças já nascem morrendo de abandono e nossos velhos e doentes terminais morrem mais rápido do que o processo de desligamento dos tubos.

Sérgio Lisboa.

Sábado, 19 de Abril de 2008

ENGANO A COBRAR



Não pode haver coisa mais absurda, mais nada a ver, do que uma ligação a cobrar por engano.
Primeiro que ligar a cobrar já é, por si só, uma invasão, uma prova de que não se consegue administrar suas necessidades, uma vez que precisa da ligação, mas não tem crédito para essa necessidade mínima.

Segundo que, obviamente, quem liga a cobrar está disposto a pedir alguma coisa.

Agora, não conseguir administrar suas necessidades, estando sempre precisando pedir algo para alguém e ainda não tendo o cuidado mínimo necessário de se concentrar e ligar para o número certo, é merecedor de um estudo antropológico para separar os seus genes, isolando-os, para impedir a propagação de sua espécie pelo universo.

Quando recebemos uma ligação a cobrar, enquanto toca aquela música horrível, o pior arranjo de notas musicais que alguém já conseguiu reunir, deixando ainda mais sádica a tortura dessas ligações, nos já ficamos na expectativa do que vem a seguir.

Normalmente quem liga a cobrar são os bandidos de dentro da cadeia, para nos extorquir com aqueles golpes de falsos seqüestros.
Essa é a prova irrefutável, de que, quando recebemos uma ligação a cobrar, só pode ser um golpe ou uma extorsão, seja de amigos ou parentes ou de presidiários.

Quando não é isso, só pode ser uma má notícia, de um acidente, de um assalto de algum familiar, de um mal súbito, da morte de algum conhecido, de alguma coisa que, certamente não é positiva.

Ninguém liga a cobrar para nós para oferecer um bom emprego, emprestar um dinheiro, para nos dar um elogio ou para iluminar o nosso dia.
Pode ser um cunhado querendo pedir algum dinheiro, algum amigo que ficou com o carro sem funcionar e que precisa que a gente saia de casa, passe num mecânico, leve o mecânico, traga uma bateria e qualquer coisa que não dure menos que uma tarde inteira.
Pode ser a empregada ligando para dizer que conseguiu tirar a mancha das nossas calças mais caras, só que tirou, também, um pedaço da calça que estava com a mancha.
Pode ser os filhos pedindo dinheiro, dizendo que bateram com o carro, a filha avisando que o resultado do exame de gravidez foi positivo e que o namorado dela ficou transtornado e largou o emprego, ou que você não encontrou a conta do telefone de casa por que eles esconderam, pois este mês realmente foi “um pouco alta”.

Existem variações dessa estratégia de ligar a cobrar, como dar só um pequeno toque, ficando a esperar que nós liguemos de volta.
Outro tipo é ligar para nós desligando em seguida, sem antes pedir para que liguemos para ele, pois ele está quase sem bateria.

Assim como Einstein, um dos inventores da bomba atômica, morreu de desgosto ao ver o uso de destruição em massa que iriam fazer com sua descoberta, Grahan Bell, inventor do telefone, quando soube que sua invenção seria usada para fins tão nefastos, como a ligação a cobrar, caiu em depressão e tratou apenas de esperar a sua morte.
O pior é que ele recebeu essa notícia de uma ligação a cobrar.
Sérgio Lisboa.

Domingo, 13 de Abril de 2008

A PAIXÃO NOS SORRI NA CONTRAMÃO



Às vezes a gente discute se está ou não muito apaixonado. Se vale a pena. Se está ou não, investindo demais na relação.


Temos que investir tudo. Temos que morrer apaixonados.



A paixão é a verdadeira forma de viver, talvez a única.



Paixão em todos os sentidos. Por cima, por baixo, pelo lado.



Paixão pelo que se faz, pelo que se deseja, pelo que se tem e por que se quer ter.



Paixão que faz trocar de vida em um minuto, que chuta o balde, a santa e todos os castelinhos de areia que incansavelmente cuidamos para ninguém pisar ou ser levado pelas ondas da mediocridade.



Azar, se vamos dar de cara num poste - o vento da velocidade da paixão no rosto é indescritível.



As obras mais maravilhosas que a humanidade nos deixou, foram feitas em momentos e com sentimento de pura paixão.



Ninguém tem dúvidas de que a Mona Lisa foi pintada com uma paixão irrefreável, com um sorriso nos lábios do Leonardo.



Que mulher maravilhosa não devia estar na cabeça de Michelângelo, quando pintou a Capela Sistina.



Quão apaixonados não deviam estar todos esses artistas maravilhosos das artes, da música, que nos legaram essas obras-primas, que nos deliciam até hoje?



A sorte da paixão sorri para a gente de um carro na direção contrária, quando estamos dentro do ônibus e é preciso descer e tomar um táxi, senão só nos restará a lembrança daquele sorriso, enquanto somos coxeados por um estivador da fila do meio do coletivo.



È preciso entrar de cabeça quando estiver apaixonado, para não morrer com uma lágrima seca e a garganta presa. Vamos morrer com aquela satisfação de que fizemos tudo, de que arriscamos, de que tivemos a nossa chance e não a desperdiçamos.



Quando a paixão bater à sua porta, peça desculpas para o teu passado e o teu presente, pegue em sua mão e vá. Não olhe para trás. A paixão sabe o caminho para a felicidade. Se vai durar muito ou se vai durar pouco, se a vida toda ou só meia hora, não importa. Se entregue a paixão. Saia do coma e retorne à vida. Reaja!



- Marido! Marido! Acorda! Você está falando dormindo!


- O quê foi mulher?


- O quê foi o quê? Levanta, pára de falar dormindo e vai arrumar a pia da cozinha que está vazando desde ontem!


Sérgio Lisboa.







Sábado, 12 de Abril de 2008

FORMIGAS CORRUPTAS



Uma nova pesquisa sugere que as formigas são traiçoeiras, egoístas e corruptas, contrariando a imagem de insetos de convivência harmoniosa e com pré-disposição para colocar o bem da comunidade acima de preocupações pessoais.
Cientistas descobriram que determinadas formigas conseguem burlar o sistema, garantindo que seus filhotes se tornem rainhas reprodutivas ao invés de operárias estéreis.
A descoberta dos cientistas prova que, embora colônias de insetos sociais freqüentemente sejam citadas como prova de que sociedades possam ser baseadas em igualdade e cooperação, elas não são tão utópicas quanto parece.
Até as formigas! Aqueles insetos minúsculos que todos nós apontávamos como os mais dedicados, os mais organizados, o exemplo do mais sagrado, do mais intocável, do mais divino procedimento que, apesar de tudo e de todos, estavam sempre ali para nos ensinar o que é um sacerdócio, uma abnegação (faz tempo que quero usar esse termo e não tenho chance!).

Aqueles seres que pareciam ser os mais puros representantes de Deus na terra, a coisa mais perfeita do universo, com ou sem explosões cósmicas, ela, a formiga, que sempre foi nosso exemplo.

O que eu vou dizer agora para os políticos corruptos, para as distorções da sociedade, para os apadrinhamentos, para as maracutaias, para todos aqueles que faziam tudo aquilo que nós execrávamos, dizendo que era antinatural, que era uma característica só do ser humano, que estávamos abaixo dos insetos.

A formiga tinha que estragar tudo. Que decepção, Dona Formiga!
Andando por aí como quem não quer nada, levando aquelas folhas sobre a cabeça, construindo formigueiros no nosso quintal (certamente super-faturado), levando nas costas os nossos doces, deixando a todos com um sentimento de compaixão daqueles pobres e indefesos seres, e ainda por cima nos dando umas picadas de vez em quando.

É preciso fazer uma retratação histórica para com a cigarra. Ficava do lado de fora daquele ninho de corrupção, cantando, certamente hinos vanguardistas, e lançando manifestos contra a corrupção (principalmente as espécies de cigarras mais raras como “Jaguaris” e “Ziraldis”), acabando abandonada à própria sorte durante todo o inverno, num exílio político na Sibéria.

Se eu fosse a cigarra, entrava com um pedido de indenização ao governo federal, por todos os maus-tratos sofridos, desde o descobrimento do Brasil até agora.

Bom, pelo menos agora podemos dizer, sem medo, que todo piquenique tem formiga, assim como todo banquete tem corrupção.
Sérgio Lisboa.

Domingo, 6 de Abril de 2008

PREPARAÇÃO FÍSICA

Estava assistindo a uma matéria em que o famoso BOPE, a tropa de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro, já retratada em um filme de muito sucesso, contratou um preparador físico, muito competente, por sinal, para dar-lhes preparo físico e trabalhar as articulações e os desgastes físicos que os mesmos enfrentam no seu dia a dia, prevenindo assim, futuras lesões que hoje contribuem para a baixa de um número considerável de policiais.

O trabalho desse profissional consiste em focar seus exercícios nas situações práticas que os policiais enfrentam no seu dia a dia, levando em conta, inclusive, o tipo de terreno e local onde estarão atuando.

Como o Rio de Janeiro, infelizmente, vive uma verdadeira guerra civil, com baixas dos dois lados, dizem, que o número de estiramentos provenientes de escorregões ao pisar nas vísceras dos mortos é muito grande e, inclusive, há um exercício específico para evitar essa lesão, considerada a maior causadora de afastamento dos soldados.

O dedo indicador é outro elemento anatômico que sofre muito o desgaste do constante uso, em função de ter que apertar o gatilho dos fuzis.

Esse trabalho, muito importante para a manutenção da saúde dos profissionais, logo será levado para outras profissões, que até então nem sequer pensavam na hipótese de terem junto de si, um preparador físico, principalmente se for levado em conta o custo que a perda temporária de um bom profissional acarreta.

A classe política já está abrindo um processo de licitação para a contratação de preparadores físicos (por enquanto estão sendo nomeados de forma emergencial, com um leve super-faturamento salarial), dada a necessidade que esse grupo tem de prevenções musculares específicas.

As partes musculares mais afetadas nos políticos, que gerou a necessidade destes profissionais são as mais variadas.

O dedo indicador, que é muito usado balançando lateralmente para negar com veemência qualquer deslize.

Além do dedo indicador, mais os dedos polegar e médio, que em conjunto, esfregando-se mutuamente, dão o sinal de que querem dinheiro.

Os músculos faciais também merecem uma atenção especial, uma vez que são forçados permanentemente a manter um eterno sorriso, mesmo quando a casa está caindo.

O pulso e a palma da mão sofrem muito também, pois são muito usados para dar tapinha nas costas dos eleitores e para aplaudir as outras autoridades.

Sem dúvida nenhuma, um músculo que merece uma atenção muito especial do treinador é a língua. A língua que é responsável pela maior parte do sucesso de um político. A língua é que faz ele arrancar o teu voto e é debaixo dela que ele esconde o salgadinho que você ofereceu (ele só come caviar) em sua casa, além de ser muito utilizada como garantia de emprego das estagiárias.

A maior dificuldade que o preparador físico terá de se preocupar com a questão da preparação física do político, é com o uso da linguagem técnica utilizada, sendo terminantemente proibida a expressão “trabalhar a musculatura”, uma vez que, trabalhar é um termo proibido entre eles.

Sérgio Lisboa.

TEMPO DE VIDA



Tem uma piada em que um médico diz para um paciente terminal, que ele tem só três meses de vida, e o paciente, ao dizer que pretendia pagar o tratamento com seis cheques mensais, o médico sai com essa:
- Tá bom! Seis meses de vida, então!

O ser humano nasce e já começa a sua luta até o fim de seus dias contra as várias doenças que o mundo disponibiliza. Até mesmo lá no útero, já está em contato com doenças ou problemas que porventura tenham surgido na concepção ou adquiridas da mãe.
Nascemos e vamos nos deteriorando aos poucos, desde o primeiro dia de vida.

Um pessimista dirá que não temos a vida inteira pela frente, e sim, a morte inteira nos esperando lá na frente. Então a nossa vida, por mais saudável que a levemos, marcará um encontro no futuro, com uma doença e, inevitavelmente, com um médico.

Sempre me chamou a atenção os casos em que os médicos decretam, proferem um “veredicto”, determinando um prazo máximo de vida aos seus pacientes. Eu sei que eles trabalham em cima da complexidade das doenças, de sua experiência, baseados em seu conhecimento acadêmico e científico e a mais forte das leis que é a lei das probabilidades.

Eu soube de uma história em que um médico disse a uma mulher que, com toda a certeza, não tinha mais do que seis meses de vida. Ela aceitou resignada e, a partir daí, mudou completamente sua rotina, passando a viver cada dia como se fosse o último, aproveitando cada minuto de seus últimos seis meses nessa vida.

Fez tudo o que sempre teve vontade, sorriu mais, brincou mais, viajou mais, se reconciliou e mudou radicalmente sua vida para melhor.

Nós estamos sempre sob a mira de pessoas que querem dar rumos às nossas vidas, com suas especialidades religiosas, políticas, científicas, técnicas, experimentais, sentimentais, etc., redescobrindo a roda a cada pneu furado.

Desde seu último encontro com o médico em que ouvira a pior coisa que alguém pode ouvir, o vaticínio de sua morte, quando ele havia lhe dito aquilo que todos, lá no fundo, mais tememos, que não viveria mais do que seis meses, ela respondeu que já se passava doze anos daquele encontro fatídico com seu médico. Doze anos! Onze anos e meio vivendo como se fosse morrer a qualquer momento.

Indagada se ela nunca havia pensado em processar o tal médico, ela olhou com o sorriso mais puro que já fora testemunhado e respondeu:
- Processar? Eu queria muito é agradecer a ele. Ele positivamente, transformou a minha vida.

Sérgio Lisboa.

Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

A MULHER DO CARTÃO DE CRÉDITO

Sabe aqueles dias em que te pegam completamente vulnerável, em que se um gato te lambe você já propõe casamento e só não passa teus bens para ele porque não sabe o seu nome completo?

Tocou o telefone. Foram só alguns minutos, mas aquela voz doce no ouvido valeram por anos:

- Senhor Gerson. O senhor sabe que o nosso cartão de crédito tem as maiores vantagens, não sabe?”

- Sei meu amor! O teu cartão enlouquece qualquer um.

- O quê senhor Gerson?

- Não, nada. Continue, por favor!

-Senhor Gerson?

- Por favor, minha querida! Repita!

O quê, Senhor Gerson?

-Ai! Esse “Senhor Gerson” me deixa louco!

Não tem problema. Nosso cartão cobre consulta psiquiátrica também, Senhor Gerson.

Continue, por favor! Quero saber tudo o que tens para oferecer!

- Então, Senhor Gerson. Além das vantagens que todo cartão de crédito oferece ao senhor, o nosso tem algo mais...

- Pára, pára, pelo amor de Deus!

- O quê foi Senhor Gerson?

- Esse algo mais, vai acabar comigo.

- Senhor Gerson, o Senhor sabe das coisas. Só o nosso cartão tem esse diferencial e além de tudo, não há cobrança de taxa de anuidade no primeiro ano e o Senhor tem chaveiro e encanador de graça.

- Chaveiro e encanador de graça? Eles vêm com essa voz e de mini-saia?

- O quê Senhor?

- Quero dizer: não dá para trocar um encanador e um chaveiro por uma atendente?

- Senhor Gerson???”

- Olha! Vou te dizer uma coisa: Minha mulher está dormindo. Estou aqui sozinho, carente, precisando de uma companhia, e você vem com essa voz suave e macia, no meu ouvido, me dizendo que tudo o que eu sonhei está sendo oferecido para mim, como se eu fosse o último homem do universo, e agora se faz de desentendida. Faz favor!

- Seu Gerson, eu devo lhe avisar que essa nossa ligação está sendo gravada!

- Que ótimo! Estamos sendo gravados! Aí pessoal!

- Eu quero fazer amor com essa atendente. Com a telefonista. Com o chefe de produção. Eu quero é ser feliz. Alguém aí quer me dizer que me ama?

- Alô! Alô! Tem alguém aí?

- Sou eu, meu amor! O Gersinho!

- Eu nem queria esse cartão mesmo!

- Esse cartão é de boiola!

- Vou fechar contrato com o concorrente que é cartão de macho!

- Não dão isenção nenhuma e na primeira oportunidade oferecem tudo.

- Uma loucura!

- Tchau! Não me liguem mais!

- Alô? Alô? É brincadeira! Alô?

- Me liguem de novo, por favor, que eu fecho o contrato!

- Não precisam nem dar isenção.

- Alô? Alô?

-Quem era amor?

- Ah! Querida! Esse pessoal que vive querendo enfiar cartão de crédito goela abaixo da gente. Cortei de cara. Comigo eles não tem chance nenhuma.

- Ai, Gerson! Sou obrigada a te dizer. Ligou um tal de Roberto, oferecendo um cartão de crédito, com um voz tão doce, com um jeito tão meigo, que eu não resisti e acabei aceitando a proposta.

Sérgio Lisboa.

Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

O NÚMERO DA BESTA

Todo mundo está careca de ouvir que a numerologia tem um efeito prático real nos nossos destinos.

Muita gente, para alterar suas personalidades, no sentido de se transformar em outras pessoas, geralmente melhores, descobriram que, assim como existe a lipoaspiração, que transforma barrigudos em tanquinhos, a simples mudança de algumas letras de seus nomes, passa a mudar a sua postura e o seu destino radicalmente.

O somatório das letras do meu nome totaliza quatro. As pessoas regidas por esse número são definidas com honestas, leais e perseverantes. Meu Deus do céu! Com essas características o mundo vai me comer vivo. O que eu quero é ser cruel, volúvel e ganhar na primeira. Preciso mudar minha numerologia urgentemente.

Vou procurar outro número. Quem sabe o número um? Independente, pioneiro e criativo. Tem a ver: não me apego a ninguém, consigo alguma virgem e vario de posições como ninguém. Não é tão mau.

Número dois: muito amoroso e compreensivo. Socorro! Número dois nem morto.

Número três: muito romântico e sedutor. Muito romântico? Estou fora. Eu quero é me dar bem!

Número cinco: aventureiro nato. Não é ruim, mas vou acabar pendurado em algum penhasco.

Número seis: carinhoso, compreensivo, meigo. Querem me derrubar!

A maior parte desses números definem verdadeiros anjos. Eu quero o número da besta! Vou prestar mais atenção nos números dos políticos (a maioria deve ter “666” escondido no couro cabeludo).

Número sete: frio, calculista e com personalidade. É isso! Não pode ser melhor.

Para transformar meu nome que soma quatro em sete, basta suprimir o “i”, enfiar um “J” no lugar do “G” e um “C” no lugar do “S” ou, ao invés de me chamar Sérgio seria “Cérjo”, ou mudo radicalmente e passo a me chamar Aderbal.

Minha última namorada, Célia Regina, fazendo as contas da numerologia de seu nome, somava o número dois, que era muito amorosa e compreensiva. Achei que tinha ganho na loto.
Ganhei foi uma raspadinha vencida. Não dava certo, de jeito nenhum e não sabia o porquê. Tempos depois que eu fui descobrir que a Célia, não era Célia com “C” e sim com “S”. Não me lembro que número deu mas era dominadora, cruel e com tendências homicidas.
O analfabetismo do pai dela e do escrivão quase causaram uma tragédia em minha vida. Célia com “S”. Veja se eu posso!

Vou lhes deixar um conselho: mesmo colocando tudo a perder no primeiro encontro, ao conhecerem uma outra pessoa, exijam a carteira de identidade e uma certidão negativa dos cartórios de registros, atestando que não houve nenhuma alteração no seu nome.
A propósito: fujam de Célias com “S”.
Sérgio Lisboa.

Sábado, 29 de Março de 2008

CASAIS QUE BRIGAM VIVEM MAIS



Um estudo realizado pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, sugere que os casais que resolvem suas diferenças e manifestam seus sentimentos de raiva ou revolta em relação ao outro, vivem mais.



Justamente agora que a Lei Maria da Penha surgiu como uma vitória, não só das mulheres, mas da humanidade, vem uma notícia destas.



Já tem marido que batia na mulher, hoje separados, que está exigindo uma reposição financeira pela melhoria proporcionada na qualidade de vida da ex-esposa, garantindo vários anos de vida a mais para a mulher, uma vez que a espancava periodicamente.



Outros até já começam a dizer ao baterem nas mulheres: “Toma e me agradeça! Este tapa já te garantiu mais três meses de vida”!



Já saiu, inclusive, anúncios nos classificados dos jornais, esposas procurando homens que batam em mulheres, pois seu marido atual é um banana que não dá nem um tapinha e, desse jeito, a mulher não chegaria nem aos sessenta.



O estudo se concentrou em críticas consideradas injustas e inadequadas, onde o risco de morte dobra.


Isso me lembra uma frase de um filme, em que uma moça, perguntada se seu marido lhe batia, ela prontamente responde: “Ele nunca me bate. Só quando eu mereço!”



Nos casos em que as críticas foram consideradas justas, não houve indignação ou rancores por parte dos membros do casal.


Portanto, se algum de vocês ouvirem os vizinhos jogando panelas uns nos outros e aos berros no apartamento ao lado, podem ficar tranqüilos e transmitam o mesmo para seus familiares, pois ali, no centro daquela confusão, está presente um motivo muito nobre, uma indignação com motivos procedentes, com alguém lutando para corrigir uma injustiça.



Ainda, segundo o estudo, uma das tarefas mais difíceis para os casais é saber se reconciliar após uma briga. Esse aspecto foi considerado até positivo nos dias atuais, em que todo o nosso tempo é tomado para garantir a sobrevivência e não é possível perder momentos preciosos de sessões de longevidade, com coisas banais tais como reconciliações.



A sociedade médica deve lançar uma nota, em breve, com um pronunciamento oficial, explicando para as pessoas que não saiam por aí trocando bofetões em seus lares, pois ainda não é considerado um preceito médico reconhecido, sendo apenas um estudo preliminar.



Se for muito grave a situação em que a pessoa se encontra, com escasso tempo de expectativa de vida, clinicamente confirmado, aí sim, ela pode procurar uma clínica de espancamento que tenha alvará e que seja reconhecida como de ilibada conduta profissional (não pode ser essas que batem por prazer).



Sérgio Lisboa.


Sábado, 22 de Março de 2008

É BOM SER CASADO?



Embora ser casado seja tão comum quanto ser solteiro, já fui perguntado mais de uma vez, sobre como é ser casado.
Em todas as ocasiões, dei um sorriso de surpresa e disse sem pensar: -É bom!
“É bom!??”. Acho que não convenceu muito.

Outras vezes, como não me veio uma resposta na hora, resolvi ser espirituoso e bem-humorado e disse : “Eu não posso te responder ainda, pois estou tentando fugir da igreja até hoje”.
É brincadeira pessoal, porque minha mulher também é minha leitora (Oi, amor!).

Eu acho que ser casado, independente da cerimônia religiosa e do estado civil tem, como todas as coisas, muitas vantagens e desvantagens.
Por exemplo: sendo casado, a gente só tem um lado da cama para se levantar.

A aceitação social e profissional, na maioria das vezes é melhor para os casados, o que já é uma vantagem.
Vocês já viram, né? “O quê? Você é solteiro? Sei não! Ou é bicha ou maconheiro!”
Além do mais, ser solteiro deve ser um saco: todos os dias temos um(a) namorado(a) novo(a).
Aqueles corpos novinhos, tudo duro, arriscando quebrar os dentes. Não me serve.
Se chega tarde ou se chega cedo, não tem ninguém para brigar contigo, nem uma reclamação. Isto é deprimente.
Se a descarga do banheiro está vazando, pode se escolher qual a estação do ano que vamos resolver arrumar e não qual o turno do dia de hoje.

Tem gente que é casada e vive como se fosse solteira. Faz o que quer, não se preocupa com os filhos, não perde nenhuma chance de ficar com alguém que surge, só tem que gastar um pouco numa parede a prova de ruídos para não dar show todos os dias para os vizinhos e comprar um capacete para o pau de macarrão. O resto é moleza.

Esses dias, o meu irmão chegou para a mulher dele, dizendo que iriam completar 15 anos de casado.
Ela, toda alegre, disse: “Que ótimo, amor! Vamos comemorar?
E ele, para surpresa de todos, disse: “Vamos comemorar, nada. Eu vou comemorar. Com 15 anos de casado, já tenho direito a liberdade condicional”.

O meu casamento, isso eu tenho certeza, vai durar para sempre.
A minha confiança nisso que eu afirmo para vocês, não é por causa de uma união abençoada, de um amor eterno, de uma maturidade de caráter, de um encontro de almas gêmeas, nada disso.
A minha certeza de afirmar que meu casamento vai durar para sempre é que prometemos ficar juntos, até o dia em que concordarmos com alguma coisa.
Pelo andar da carruagem, vamos ficar juntos para sempre.
Sérgio Lisboa.

O EFEITO BORBOLETA



Todo mundo já ouviu falar deste livro e desta teoria que prega que, qualquer ação, por menor que seja, em qualquer lugar do planeta, sempre ocasiona algum tipo de conseqüência, em outro ponto, mesmo que distante do inicial.
A tese-símbolo desta teoria é que, o simples bater de asas de uma borboleta no oriente, acaba gerando uma inundação no ocidente.

Indo nessa linha, sou capaz de me lembrar de vários fatos que fizeram a história de nosso país, que, de alguma forma, dão respaldo á essa teoria:

A eternização do Faustão, que parecia apenas uma coisa inconseqüente, acabou gerando o programa “Pânico Na Tevê”;

As novelas que hipnotizam as mulheres, que acabaram contribuindo para o alcoolismo nos maridos;

O futebol na tevê, que fez a mulher começar a olhar e pensar no vizinho, que para nossa sorte, também vê futebol (o único vizinho que não gosta de futebol, também não gosta de mulher);

A renúncia de Collor, embora não tão simples, gerou dois, ou quem sabe três mandatos de Lula.
Assim como a atuação de Collor foi bem menos poética do que um bater de asas de uma borboleta, os dois ou três mandatos de Lula são bem mais arrasadores do que uma inundação.

Aliás, essa teoria casa com os problemas brasileiros de tal forma que não se consegue imaginar outros extremos : um governo que é frágil como o bater de asas de uma borboleta, quando se posiciona externamente e arrasador como o efeito de uma inundação, quando tem que ter posições com relação às intervenções internas.

Isso faz a gente até ter pensamentos mais criativos com relação a essa teoria, lançando o efeito capacho.

Essa teoria, do efeito capacho, reza que sempre que alguém se deixa pisar por outro alguém, em qualquer parte do mundo, acaba gerando um efeito dominó, em que todos acham que podem pisar em qualquer um, o que causa uma apatia geral e uma aceitação passiva das ingerências externas, inclusive em nosso meio.

Estou falando de nossa casa, de nosso emprego e de nosso país.

Quanto a mim, eu acredito no efeito borboleta, pois um dia em que eu saí, por aí, solto porque minha mulher estava viajando, livre como uma borboleta, acabei com um pau de macarrão na cabeça, quando ela voltou, que até hoje ostenta um galo na minha testa.
Essas teorias funcionam mesmo!
Sérgio Lisboa.

Sexta-feira, 21 de Março de 2008

DESCOBERTO COMO NASCE O CÂNCER

A economia de mercado, se não fosse tão determinante para nossas vidas e, geralmente, de forma negativa, daria para ser um prato diário delicioso para textos humorísticos.

Quando é somada ao jornalismo e apresentada somente com uma chamada no jornal ou na televisão, fica ainda mais hilária, vista isoladamente ou, da pior forma, ao lado de outra notícia completamente antagônica a ela, que juntas, acabam mais parecendo uma pegadinha do que uma notícia.

O sonho de todos é que, pelo menos uma vez, nem que seja por um mísero dia, o preço dos combustíveis baixe, mas as notícias se apresentam assim:

“Preço do barril de petróleo cai”.

“Gasolina sobe de novo”.

Os criadores do horário de verão, que faz com que o indivíduo leve três meses para se adaptar, e quando isso acontece, retorna o horário normal, levando mais três meses para se readaptar, para seis meses depois repetir essa agressão ao organismo, retribuem o nosso esforço com essas notícias:

“Horário de verão traz economia de 1%”.

“30% do PIB cai no ralo do desperdício público”.

A firmeza do governo em relação à crise econômica mundial parece não ser compartilhada pela maioria do povo brasileiro, mas podia não ter sido percebida, se os revisores jornalísticos tivessem mais cuidado:

“Governo não teme queda das bolsas no mundo”. “Crescem as vendas de papel-higiênico”.

Mas existe um tipo de diagramador, cínico, que quando está indignado, faz umas misturas de chamadas jornalísticas, que joga ao mar, feito garrafas-mensagens, como que a dizer :”bebam um pouca da verdade”, e acaba publicando pérolas como essa:

“Descoberto como nasce o câncer”.

“Iniciada a reforma política”.

Sérgio Lisboa.

ENGARRAFAMENTO CEREBRAL



Pesquisadores nos Estados Unidos descobriram uma razão plausível para a dificuldade que as pessoas têm de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Um "engarrafamento" ocorre no cérebro quando as pessoas tentam realizar duas tarefas simultâneas, mostra uma pesquisa.

Alguns especialistas em trânsito, inclusive, já aproveitaram essa descoberta para explicarem às pessoas que os “engarrafamentos” de veículos nas cidades nunca existiram, eram apenas uma projeção neuro-psíquica dos nossos engarrafamentos cerebrais.
Este fenômeno, conhecido como "interferência da tarefa dupla" (essa nomenclatura foi difícil de criar), mostrou que a atividade neurológica faz uma “fila” para processar cada tarefa.

As coisas começam a fazer mais sentido, pois se nosso próprio cérebro faz uma fila para atender cada comando, imaginem se não iria ter fila no atendimento do INSS, onde a espera para os comandos cerebrais dos atendentes já está saindo pelos ouvidos, parecendo um brinco de cigana.

Agora eu posso respirar mais aliviado! Acabaram-se as brigas com a minha colega de serviço. Ela sempre falou que era incapaz de respirar e pensar ao mesmo tempo e eu não tinha paciência para com ela.
Desculpa, colega! Como fui insensível.

Outro que deve ter algum dano cerebral é o meu chefe, pois ele não consegue elogiar duas pessoas ao mesmo tempo, mas consegue reclamar de oito, enquanto come um pacote de biscoitos.

Também não vou mais reclamar do meu cunhado, quando ele esquecer de pagar o que me deve (o coitado sempre dizia que não conseguia me pedir mais dinheiro e me pagar ao mesmo tempo).

Um fato curioso foi o resultado da mesma pesquisa, feita com os participantes do “Big Brother”, onde se descobriu que não eram afetados por essa “interferência”, uma vez que nunca tinham dado mais do que um comando para seus cérebros, desde que nasceram.

Outra exceção do estudo foi com o grupo da classe política, pois foi descoberta uma região no córtex cerebral deles, que permitia fazer duas atividades simultâneas, dando-lhes condições privilegiadas (privilégios é com eles mesmo) para que possam servir à Deus e ao Diabo ao mesmo tempo.

Alguns estudiosos do assunto divergem dessa tese, alegando que não é o córtex deles que é diferente, e sim um novo fenômeno chamado “ interferência do jeitinho fácil”, onde suas células desenvolveram uma forma de passar na frente nos comandos cerebrais, numa espécie de venda de senhas da fila das atividades neurológicas.
Sérgio Lisboa.

Sábado, 15 de Março de 2008

NÃO VER MAMILOS CAUSA TRAUMAS

Saiu uma notícia, onde a chamada era que uma empresa norte-americana de calças jeans, teria que tirar de circulação um comercial, publicado na página do Jornal The New York Post, em que aparecia uma modelo vestida de calça jeans e nua da cintura para cima, onde seus seios apareciam sem mamilos, apagados por efeitos computadorizados (está aí, uma forma de sair em fotos sem barriga).

A atitude foi considerada danosa à educação das crianças, que poderia causar um trauma nas mesmas, pois boa parte delas foi amamentada nos primeiros meses de vida, sabendo que os seios tem mamilos e agora ficariam com uma visão psicológica atrofiada desta parte genética do corpo humano.

Em primeiro lugar eu gostaria de conhecer essas crianças americanas que lêem o The New York Post, pois devem ser as mesmas que investem na bolsa de valores e que acabam levando as nossas empresas à falência, além da alta incontrolável dos juros.

Em segundo lugar, eu acho que ver desenhos animados, onde os personagens cortam as cabeças dos coleguinhas que não dividem o seu lanchinho, talvez, seja um pouco traumático também. Bom, sei lá! Não sou especialista.

Aqui no Brasil, um país onde mamar nas tetas é a principal forma de sobrevivência e o principal indicador de sabedoria, poderá realmente causar sérios danos à nossa população vir saber que mamilos não existem ou não existirão mais.
Será um trauma irreversível para todo o país e gerar uma quebradeira geral, afetando primeiro, a construção civil, pois as empreiteiras pararão de construir, não tendo mais aqueles contratos, em que uma sala de aula custa o mesmo que um viaduto (isto porque eles consideram a educação mais importante do que tudo).

Você vai perguntar: então quanto custa um viaduto? Não custa nada, pois não os constróem. Eles compram jatinhos para não precisar andar de carro.

Enfim é preciso tirar urgente essa propaganda de circulação, antes que chegue até aqui no Brasil, sob pena de colapso social e perda total da identidade nacional de um país que é dividido somente em duas categorias: a dos que estão mamando e a dos que estão querendo mamar.
Sérgio Lisboa.

Segunda-feira, 10 de Março de 2008

O TÍTULO É QUE TRAI O LEITOR

Faz um bom tempo que eu observo que, para chamar a atenção do leitor para um texto, seja uma grande ou pequena publicação, de um escritor conceituado ou não, faz uma grande diferença, um título original e chamativo para o texto.
Isso de um modo geral, pois se o texto é bom, a fama dele se espalha e mesmo que o título fosse “Tampax”, faria sucesso igual.
Num primeiro momento, em qualquer lugar em que for publicado, seja num grande jornal ou no mural do escritório, o título é muito importante.
Os leitores passam os olhos pelo jornal ou pela internet, bocejando, até que se deparam com alguma coisa que atrai sua atenção, que faz com que ele pare de bocejar, esfregue bem os olhos, fixe bem o olhar, solte um sorriso e pense consigo: um título diferente.
O título diferente é tudo de bom. Só o título já vale o texto. A gente pensa: o que será que vem, a seguir, com um cara que inventa um título desses. Se o título é bem bolado assim, imagina o texto. Todo mundo pensa assim.
Eu não quero dizer com isso que as pessoas passem, agora, a só se preocupar com um título com efeitos especiais e não se preocupem mais com a qualidade de seu texto ou, fiquem frustradas após escrever um texto maravilhoso, porque o número de leituras foi muito baixo.
Parece até que eu estou vendo, uma onda de suicídios em massa, textos maravilhosos queimados, porque o título não foi chamativo.
Vamos com calma!
Quem tem qualidade no que escreve e leva fé no seu taco, não está lá muito preocupado com o nome que vai dar ao título, que pode até ser mais rebuscado, para dar um maior impacto (até porque a obra literária inclui também o título) ou ser bem mais simples que a profundidade do texto, para dar um maior contraste e torná-lo ainda mais especial.
Tem escritores, e me incluo entre eles, que tem uma relação mais íntima e importante com aquele texto e seu título e não abre mão deste último, mesmo que o rumo do texto enverede para outros lados.
Existem outras formas literárias, em que o título é parte integrante do texto, daí não incluí-los, neste debate.
O certo é que se um texto é bom ele pode se chamar apenas “O Mar” e ser uma coisa maravilhosa, profunda, vasta, com ondas gigantescas de inspiração.
Também, pode se chamar “A Arte Fragmentada” e ser um texto ruim, abordando a história de quando Joãozinho quebrou um vaso antigo de sua mãe.
Meus textos, a partir de agora, serão todos com muito impacto, e se eu escrever, por exemplo, sobre um simples andar de bicicleta, o título será “As Pernas Num Vai-E-Vem”. O que vocês acham?
Garante a leitura, não?
Se for escrever sobre tomar um simples copo de água, o título será “O Prazer Fácil”. Fala sério! Faz o cara largar um Machado de Assis, na hora.
Se fosse escrever sobre a reforma política, o título poderia ser “Faxina no Bordel”. Já pensaram?
Didática e pedagogicamente, ganharia um prêmio.
O grande problema é que tem gente que acha que a política é ainda mais lasciva do que um bordel.
Algumas coisas precisam de mais tempo para serem digeridas.
Enfim (graças a Deus), o título ainda não é tudo.
Sérgio Lisboa.

Domingo, 9 de Março de 2008

O PERFIL DO SOCIOPATA

Dizem, os especialistas, que tem um perfil genético padrão em cada indivíduo, cujo comportamento é violento ou anti-social e que, identificam quem pode ter uma maior pré-disposição para cometer delitos.
As sobrancelhas muito juntas é um sinal característico de alguém que pode fazer mal para a sociedade (Se não me engano, o Faustão tem as sobrancelhas assim).
A amígdala avantajada é outra, não a papilar e sim a cerebral (se a gente tem amígdala no cérebro, talvez tenha cordas vocais e explicaria porque ouvimos vozes) é outra característica, que os estudos apontaram, recentemente.
Talvez tenhamos cordas vocais nos órgãos genitais e sequer saibamos, o que explicaria a irresistível atração da nossa região bucal para aquelas bandas.
Dizem que mão grande é um sinal de que o cara é chegado nas coisas do alheio. Como se sabe que as mulheres aprenderam no programa do Nelson Rubens, que quase todo o cara com a mão grande, tem 97% de chances de ter um “negócio” bem grande, esse meliante tem a maior probabilidade de enfiar a mão nas tuas coisas, lá na tua casa, quando você não estiver.
Outro sinal, desta vez, comportamental característico e que é definitivo para identificar um potencial candidato a causar problemas, é o que olha para baixo enquanto conversa com a gente. Esse é um dos mais perigosos, pois já está observando qual o número do teu sapato, para usar depois de te picar inteirinho e te enterrar no fundo do quintal.
Muito cuidado com esse. Minta para ele, dizendo que teu sapato é emprestado e não vai servir nele ou aponte para o céu, dizendo: ”Olha o avião!” e desapareça (mas nunca diga “Olha o avião da TAM, que ele vai continuar olhando para o chão).
Mas, talvez, o mais temerário deles, o número um, aquele que vai, com toda a certeza, acabar com teu sorriso e com tua esperança, é aquele que te pede para te representar e que, vai fazer tudo de bom para ti e para todos e ao invés disso, te torna cúmplice dos seus atos maquiavélicos, sem te deixar chance de voltar atrás, durante, pelo menos, quatro anos. Esse é um de fala mansa, paletó e gravata, que, até te olha nos olhos, pois investe no mercado negro do transplante de córnea, e não guarda remorso, nem arrependimentos, pois sua bagagem já está cheia de dólares.
Para fugir desse tipo, nem a morte adianta, pois ainda assim, ele vai levar uma beira no teu auxílio-funeral.
Sérgio Lisboa.

A VELOCIDADE DO TEMPO

Todos vocês já devem ter reparado ou ter a sensação de que o tempo, hoje em dia, voa.
Um dos motivos é a falta de sincronia entre os relógios e a rotação da terra, alterada através de ajustes, negados veementemente pelos cientistas, em que acelerou os dias, em um ou dois segundos e isso explica, agora, o porquê de, uma vez por dia, a gente cair sentado (é por conta da aceleração e não pelos escândalos do governo).

A vida moderna que levamos hoje é, também, a grande responsável.
Com os recursos tecnológicos disponíveis, com a instantaneidade das comunicações e das informações, faz com que, paradoxalmente, ao invés de termos mais tempo para relaxar e vê-lo passar, precisamos usar todo o tempo para nos informar mais, trabalhar mais, comunicar mais, cobrar e ser cobrado mais rapidamente, sem falar que, com o mundo sendo oferecido a nós, em nossa casa, cada segundo parado, dá-nos a sensação de que estamos sendo passados para trás ou que estamos perdendo alguma coisa.
Hoje levantamos mais cedo, deitamos mais tarde e parece que estamos sempre, perdendo tempo.

A semana passa tão rápido, que a gente chega no “happy hour” de sexta-feira, ainda palitando o dente da semana passada.
Passa o ano novo e já estamos procurando presentes para o próximo natal.
Se demoramos muito para contar uma piada nova, os caras dizem que nós já contamos ela mês passado.

Hoje, até a definição de viciado ou dependente, que, segundo alguns, é quem se utiliza de substância entorpecente, pelo menos uma vez por semana, tem que ser revista, por que, uma vez por semana, dá a impressão de ser todos os dias.

Num desses encontros de final de semana, estávamos numa rodinha de chopp, e junto conosco, um cara, cujo apelido era “mendigo”. Tinha esse apelido, pelo aspecto, pelas mesmas roupas que usava, em qualquer ocasião, seja para um casamento ou para consertar o freio do caminhão e, segundo dizem, tinha uma certa aversão a duchas, chuveiros e afins.
“Temos que poupar a água do planeta”, dizia ele, num discurso ecologicamente correto, de causar adesão.

Só que uma vez ele exagerou no hiato de tempo entre um banho e outro, de tal forma que, já estávamos às vésperas do natal e ele tinha preso ao cabelo endurecido, (acreditem!) uns confetes de carnaval.
Olha o tempo que o homem ficou sem banho!

Indagado sobre essa situação constrangedora e, como o assunto era a velocidade do tempo, ele não teve dúvidas e lascou: ”Isso não é relaxamento, meus amigos, é só a velocidade do tempo”.
Sérgio Lisboa.

Domingo, 2 de Março de 2008

ROUBARAM O MEU ESTEPE



Os caras pararam com um veículo importado, que custa cinco vezes mais do que o meu, puxaram um fio que fica na bateria, pela parte da frente, logo abaixo do limpador de pára-brisas, com um arame fino pescaram o tal fio, cortaram o mesmo e acabaram, em segundos com todo o sistema de alarme que eu possuía, deixando o carro, completamente sem voz e sem luz, a mercê de qualquer chave para abri-lo e adentrá-lo.


Fizeram toda essa operação, com uma logística cara, com o tal do carro importado, que sendo roubado, ou não, influi nos custos do processo.


Tudo isso, não foi executado para levar o veículo para o buraco negro do comércio de veículos roubados, mas para simplesmente abrir meu porta-malas e retirar o meu estepe, que fica atrás do veículo, o que de fato consumaram seu intento ( basta escrever uma crônica sobre roubo que a gente acaba usando terminologias policiais).


A gente fica assustado, indignado e tudo que é “ado” possíveis, mas acaba pensando que os caras merecem. Tirei o chapéu.


Toda essa técnica, rapidez, logística, para levar uma simples roda com pneu. Uma só, não foram os quatro pneus e rodas. Se fosse numa loja comprar uma só roda e um pneu, novos, numa super-oferta, pois é um carro popular, gastaria, no máximo, duzentos e cinquenta reais. No mercado paralelo, talvez eu gaste a metade (cento e vinte e cinco). E eles devem vender pela metade, ainda do preço do paralelo (sessenta reais).


Mercado paralelo? Sou capaz de encontrar lá, o meu próprio pneu e roda e ainda pagar por eles.


Chegamos num momento em que compramos as coisas que eram nossas, nos mercados paralelos, pela metade do preço de mercado, e ainda comemoramos a pechincha.


A ironia do destino é que eu tinha no porta-malas, junto com o estepe, justamente naquele dia, uma compra que incluía camarão, bacalhau, queijos e vinhos, comprados com o cartão de crédito, que valiam bem mais do que o estepe (talvez cinco vezes o que eles iriam lucrar).


Mas eles são profissionais e não desviam sua atenção para outros itens que não fazem parte de seu catálogo.


O que eu posso dizer é que me senti honrado com o extremo profissionalismo dos ladrões, com sua técnica apurada, com sua objetividade, sua pró-atividade, para um item, que individualmente rende tão pouco.


Se precisarem de mim para intervir por vocês, num momento de greve por uma melhor reposição salarial, ou até mesmo para uma equiparação, com certos concorrentes da política, que não tem técnica nenhuma, apenas dão com as duas mãos, contem comigo.


Ah! Obrigado por não terem revirado as minhas sacolas de compras.


Sérgio Lisboa.




A NOVA VERSÃO DE MIM



Eu ouvi uma frase que achei bem interessante, que dizia, mais ou menos, assim: “Nós não envelhecemos com os anos, isso acontece com sapatos e carros, vamos, a cada dia evoluindo, aprendendo e melhorando e, quando chegamos a certa idade, estamos no auge, no melhor momento. Hoje eu sou a mais nova versão de mim mesmo”.


A mais nova versão de nós mesmos.


Estamos aqui, com toda essa experiência, conhecedores de todas as portas que dão choques, no labirinto de ratos de laboratório da vida, sentados na primeira fila, como espectadores privilegiados, assistindo ao espetáculo de descobrimento do mundo, de nossos filhos, sobrinhos e netos.


Estamos aqui, bem vivos, com palavras mais bonitas para dizer e com mais coragem para dizê-las.


Estamos aqui, um pouco longe daquele bando de amigos que tínhamos, mas abertos para um dia encontrá-los e quem sabe, não sair por aí, quebrando uma vidraça ou empinando juntos, uma pipa.


Estamos aqui, aquela eterna criança, que ficou mais pesada e lenta fisicamente, mas que multiplicou a velocidade de suas emoções e sentimentos.


Qualquer um de nós têm consciência, lá no seu íntimo, que quando éramos mais jovens, andavámos e corriámos mais rápido, tremiámos menos as mãos, e nossos corações eram bem mais disputados naquela época do que agora (a não ser pelos cardiologistas, nos dias de hoje).


Mas o que sempre tivemos e continuamos tendo é a nossa percepção de mundo, o nosso olhar para as coisas, as nossas lembranças e a maneira com que enfrentamos as situações que a vida nos coloca à frente.


Se não existissem espelhos, nós só nos surpreenderíamos de não conseguir mais escalar um muro de dois metros, mesmo muitos anos depois de nossa infância, na oitava tentativa, quando, então iríamos parar e achar que algo não estava mais igual a antes.


Para todos os que estão lendo esse texto, eu gostaria de parabenizá-los, dizendo : “Hoje você é a nova versão de você mesmo”.


Apesar de admitir, que para mim mesmo, o meu modelo,1980, era bem mais esportivo, termino citando Mário Quintana :


” Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!..."


Sérgio Lisboa.





MAL-HUMORADOS



Como tem gente mal-humorada no mundo.
Se você é um deles, e já começa a ler essa crônica achando defeitos, já aviso que “mal-humorado” é com L e com hífen, enquanto “mau humor” é com U e sem hífen. Dos demais erros ortográficos, pode reclamar a vontade.
Não vou dizer que temos que estar sempre, e, principalmente nas primeiras horas da manhã, com aquele sorriso tipo “Sílvio Santos”, mas ficar o dia todo, ou até mesmo durante todo o ano, de cara amarrada, também não dá.
Todo mundo já está careca de saber que a tristeza espanta as pessoas e também as coisas, pois ambas invariavelmente andam juntas, e que, o contrário, a alegria, o sorriso no rosto, é uma fonte de atração e ainda faz bem para a saúde.
Já ouvi dizer que pessoas mal-humoradas são espíritos que precisam evoluir, o que nos leva a pensar que aquele humor horroroso, que vem desde a idade média ou antes, vai assombrar várias encarnações, ainda.
São os “highlanders” do mau humor.
Atravessam o tempo, como vampiros, espalhando suas nuvens negras e sua escuridão, ao longo da eternidade, e não há estaca de madeira, em forma de sorriso ou crucifixos em forma de carinho, nem água benta, em forma de paciência, que os transforme ou que, ao menos, nos ajude a conviver com gente assim.
Nas poucas vezes em que temos uma alegria a compartilhar, em que nos sentimos bem, em que temos vontade de sair cantando e pulando (esses momentos ainda existem, gente!), damos de cara com aquele personagem de filme de terror, rosnando para nós e nos fulminando com o olhar, como a que nos dizer: “te manda com essa alegria daqui”.
Todas as publicações a respeito de auto-motivação, de mudança de comportamento, poder da atração, de pró-atividade, o segredo, etc., dizem que temos que ter atitudes alegres e positivas e, literalmente fugir de pessoas negativas, pois acabarão nos afetando de tal forma, que precisaremos de uma verdadeira lipo-aspiração em nosso campo energético, sem falar nas inúmeras cirurgias plásticas para colocar em ordem as pelancas criadas pelo baixo-astral.
Vamos, então, fugir de gente assim. Manter distância, pois é uma questão de saúde pública.
Evitar que esse vírus se espalhe e nos leve a um quadro de mau humor e tristezas, generalizado.
Só falta agora, vir os direitos humanos, alegando discriminação contra os mal-humorados e os negativos.
Desse jeito, vão acabar baixando o nosso astral.
Sérgio Lisboa.

Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

UM QUADRO COM EDIFÍCIOS



Qualquer pessoa, quando pensa numa tela para colocar na sala de visitas, pensa logo em uma paisagem paradisíaca, numa montanha, numa praia ou num jardim cheio de pássaros.


È a coisa mais natural do mundo (tanto as telas quanto pensar assim).


Eu não. Eu moro numa rua sem saída, ao lado de um mato tombado e preservado, cujos únicos ruídos que escuto são dos latidos dos cachorros, da festa dos pássaros e minha única vista é para o vizinho da frente e para o mato.


Então, fui em uma loja e comprei um quadro com um mar de edifícios, da maior cidade do mundo, uma foto noturna, para caracterizar bem a anti-natureza.


Levei uma hora para poder sair de lá, pois o vendedor tentava mudar minha idéia, me oferecendo, desde colibris voando sob o jardim, passando por icebergs flutuantes (dizendo que a imagem era tão real que era até possível substituir o ar-condicionado) e chegando a quadros de baleias (esses ele diz que vende muito para clínicas de emagrecimento como fator motivacional).


Parece loucura o que eu vou dizer, num tempo em que tentamos a todo custo preservar a natureza, resgatar valores campestres, fugir do concreto e do asfalto, ainda assim tenho momentos em que tudo o que quero é assistir qualquer coisa na televisão. Um desejo incontrolável de comer uma pipoca de micro-ondas, com aquele cheirinho de conservante de baunilha, abrir uma lata de sardinhas, derramando aquele óleo em torno dela, ler aqueles encartes de hiper-mercados, que anunciam desde meia soquete a tevê de plasma, sentar na cama, acompanhado de uma boa leitura, para nos desvendar alguns mistérios (o manual de instruções da câmera digital, para, finalmente, descobrir para que serve aquele botão vermelho).


Em certos momentos, tudo o que queremos é um pouco de artificialidade, de urbanidade, de poluição, de tecnologia, de modernidade, de...


Me perdoem, mas eu olhei para o lado e vi uma árvore gigantesca, cheia de flores laranjas, as mais lindas flores laranjas que alguém já viu, como que a me dizer: ”Termine a crônica que nós estaremos esperando”.


Por favor, não me levem a mal, mas minhas pipocas queimaram, minha lata de sardinha estufou e meu encarte do super-mercado serviu de privada para o gato, e o quadro dos edifícios, vai servir para lembrar que devo olhar para fora, mais seguidamente, e fitar a natureza.


Quanto ao botão vermelho da máquina digital, não faz mais diferença, pois já gravei, na retina, a eterna imagem das mais lindas flores laranjas, que alguém já viu.


Sérgio Lisboa.

Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

SOBRE DECOTES E ROTTWEILERS



Tinha um colega, agente de trânsito, muito magrinho, que era muito inteligente, tinha duas faculdades, fazia contas impossíveis de cabeça, tinha uma memória fotográfica e sabia de cor a escalação do Manchester United, de 1950.
O problema dele era que para responder uma pergunta, levava mais tempo que internet discada para baixar um arquivo, ou seja, era muito lento. Quando era para anotar a placa de um carro, o tempo que ele levava para, decodificar a mensagem e olhar para o lado, correspondia ao mesmo tempo em que o carro chegava ao final da reta e fazia o retorno. Por isso que se dizia que se ele pegasse o cacoete de olhar sempre para o lado inverso do que deveria, a chance de visualizar os veículos era muito maior.
Tem uma coisa em que ele era muito rápido, vou contar para vocês: quando se tratava de mulher. E bota rápido nisso. Para observar mulher ele tinha uma rapidez assustadora, para responder para mulher, acabava aquele silêncio estático, e se tornava, no ato, um locutor de loja de varejo.
Que coisa mais incrível isso, deve ter uma região do hemisfério cerebral, responsável pelas sensações, que quando ativada, transforma um indivíduo catatônico em pró-ativo em primeiro grau.
Mas um dia, eu e o agente de trânsito, caminhávamos no canteiro central da avenida, quando parou ao nosso lado, um carro com um casal. O cara parecia um lutador de vale-tudo, com cara de muito poucos amigos, e fazendo o Alexandre Frota parecer um nerd. Ao lado dele, uma mulher, com um decote que terminava nos joelhos, com um par de seios grandes, firmes, bronzeados, etc. (não dou maiores detalhes, pois não reparei direito), enfim um par de seios que até o Clodovil olharia.
Mas quem estava comigo não era o Clodovil, e sim o nosso agente de trânsito. Imaginem a situação. Na mesma hora em que o carro parou, o agente de trânsito não só colou os olhos nos seios da mulher, e começou a babar (parecia o monstro Alien, abrindo a boca lentamente e a gosma correndo). Além disso, como se não bastasse, ele foi levantando seu braço, lentamente, com o dedo indicador esticado, como naqueles filmes de mortos-vivos e, para o meu pavor, apontou diretamente para os peitos da mulher.
O cara que estava com a mulher, que já estava de olho no agente, antes mesmo do carro parar, puxou o freio de mão, mostrou os dentes como um cachorro “rottweiler”, deu um grunhido assustador, e desesperadamente tentava desatar o cinto de segurança, para avançar na jugular do agente de trânsito.
Para a nossa sorte o cinto estava difícil de abrir (agora eu entendo porque se chama cinto de segurança) e deu tempo para o agente enviar uma mensagem para o cérebro, processar e enviar a resposta para a área de trabalho, antes da maior tragédia do trânsito brasileiro acontecer.
Ele com aquela mesma expressão de zumbi de filme B, quase parado, derrubou o gigante lutador e salvou-nos a todos do morticínio, como que por milagre, com apenas uma frase, dita em câmera lenta: “Ela está sem cinto de segurança”.
Sérgio Lisboa.

Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

SEJA CRIANÇA



Nós precisamos ser crianças. Fazer criancices. Cometer infantilidades. Como elas, estarmos sempre rindo e de bem com a vida. Como elas, aprender a perdoar, a aceitar, a se adaptar e ter respostas para tudo que é complicado na nossa vida. Não querer explicar como nasce um eclipse, apenas apreciá-lo. Não querer explicar como se forma o sorvete, e sim que ele está ali, diante de nós, maravilhosamente delicioso.


O adulto acha que deve ser sério e equilibrado. Ele confunde maturidade com aspecto sisudo e fechado.


A criança está sempre aberta, criando novas formas de se divertir e aprender, não admitindo ficar parada, numa rotina inquietante.


Até mesmo em momentos difíceis de nossas vidas, procuremos conversar com uma criança, ela, certamente, dará palpites puros e singelos (com certeza os palpites serão mais aproveitáveis do que os da equipe econômica do governo). Temos muito a aprender com elas. Ou melhor, temos muito a aprender com a nossa própria criança interna, tentando encontrá-la, sempre, e trazendo-a para junto de nós.
A criança vê um semelhante em qualquer lugar e corre em direção à ele, pega em seu braço e saem de mãos dadas para brincar.


Talvez os adultos que não tiveram uma infância completa, devessem brincar com seus filhos, sobrinhos e netos, as brincadeiras deles, montando casinhas, ouvindo suas músicas, assistindo desenhos e, se possível correr e pular com eles.


Não devemos ter medo de parecer ridículos, pois já fazemos isso o tempo todo, quando imitamos o modo de vida dos outros, reproduzindo o que a sociedade nos impõe, quando lemos sobre as loucuras que os artistas fazem, pois eles brincam como crianças e ainda ganham uma fortuna para isso.


Vamos nos infantilizar para transformar o mundo numa grande festa, sem malícias, sem maldades, sem caras sérias.


O começo é um pouco difícil, pois corremos o risco de aparecer no serviço, com um bigode de leite nos lábios, a cara cheia de riscos de canetas de pintar e até, quando for pagar a gasolina, ao invés do cartão de crédito, sair o cartão-passaporte do parque de diversões.


O jeito é dar uma gostosa gargalhada e convidar o frentista para tomar um sorvete.


Quem estiver lendo esse texto e achar que é uma fantasia ridícula, tudo o que escrevi, acertou, pois é isso que o mundo está precisando, de mais fantasia e menos medo do ridículo.


Se quiserem continuar adultos, sérios e maduros, fiquem a vontade, mas não vão ganhar sorvete.


Sérgio Lisboa.








Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

REENCARNAÇÃO

Raskolnikov, personagem de “Crime e Castigo”, de Dostoievski, chega à conclusão de que Deus não existe, parando em uma encruzilhada, em que tem que decidir o caminho a seguir: ser bondoso e sensível, acreditando que haverá um resgate ou um juízo final, ou qualquer prestação de contas na outra vida, ou acreditar que tudo acaba com a morte, e, então, não havendo necessidade, nem razão de ser bom e justo e que pode fazer as maldades que achar mais convenientes para a sua própria satisfação (tem gente que já escolheu esse caminho a muito).

Será que existe vida após a morte?

Se levarmos em conta a classe política, dá para duvidar se existe vida antes da morte.

Ou será que morremos e tudo acaba, ali mesmo, embaixo da terra?

Depois de tudo o que aprendemos e evoluímos, durante a nossa vida, acabamos virando irmãos dos tubérculos, parceiros do nabo?

Casos em que a pessoa, após sofrer um trauma profundo, numa parada cardíaca ou num acidente de trânsito, por exemplo, revela que viu toda sua vida, passando de trás para frente (como aqueles filmes que ficam encalhados nas locadoras, sempre sugerido pelos donos das mesmas), em questão de segundos, nos dão alguma pista sobre o que acontece conosco, quando estamos na fila da outra vida.

Ver tudo o que fizemos, desde a nossa infância e detrás para frente, não é fácil, não.

A nossa primeira relação sexual, fica mais parecendo uma experiência homossexual (para alguns, não apenas parece).

A nossa primeira comunhão, um exorcismo.

O nosso primeiro pé na bunda, um passo de balé.

O nosso primeiro trabalho, um desemprego.

O nosso primeiro enterro, um renascimento.

O nosso primeiro casamento, uma besteira (esse é besteira sempre, não importa o lado).

Nosso primeiro filho, em nossas mãos, uma água que escorre.

Uma vez sofri um acidente de trânsito, e segundo os socorristas que me atenderam, estava, praticamente morto, e, naqueles instantes, o que me lembro é de uma luz, que me atraía, e no fim dela, minha mulher, com um pau de macarrão, gritando :”Volta, covarde! Não vai ainda! Hoje é dia de super-mercado”!

Quando estamos dormindo, em nossos sonhos, temos as mais infinitas experiências e emoções, que muitas vezes são extremamente reais. Mas quem nos observa, não vê mais do que um corpo, deitado, adormecido, como se estivesse morto.

Talvez seja essa a verdadeira realidade da morte. Todos em volta de você, enquanto está deitado, com vários prazeres e emoções sentindo, em seus sonhos, mas passando para os que te vêem, a imagem da inércia, da morte, do fim. Sem falar que está se deteriorando gradativamente.

Se existe mesmo resgate e reencarnação não dá nem para morrer tranqüilo, pois quem acha que viveu em uma época de fartura de alimentos, por exemplo, pode voltar em 2050 e viver uma era totalmente sem água.

Já pensaram: comeram e beberam do bom e do melhor e voltam reencarnados numa época em que o banho é uma vez por ano, e com água suficiente só para enxaguar as pálpebras.

Seus banquetes substituem, agora, o caviar e a lagosta por areia e gafanhoto?

E os personagens, que hoje fazem parte de sua realidade, invadirão a tua reencarnação, na mesma proporção de antes.

Por exemplo: haverá Lula lá, Silvio Santos (este parece que comprou sua própria máquina de reencarnação) e Faustão.

Acho que estou fazendo confusão :é reencarnação, não purgatório.

Purgatório ainda existe, não é? Pelo que eu sei a Igreja só revogou o Limbo. Sei lá!

Quanto a mim, eu fico com o Millôr : “Eu acredito na reencarnação: a prova mais forte disso é o croquete”.

Sérgio Lisboa.

Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

EM QUE VOCÊ É BOM?

Durante toda a nossa vida, escutamos que temos que ser bons em alguma coisa.
Eu sempre achei que eu era bom em dormir. Poderia ser um personal sleeper. Ensinar todas as técnicas de virar para o lado, quebrar o despertador, esquecer compromissos, dormir em dias chuvosos, como evitar morder a fronha (muito importante), etc. Essa sempre foi a minha vocação. Mas a profissão já estava saturada pela concorrência dos fiscais da Amazônia.
A gente tem que se especializar.
Especialização, é a palavra de ordem. Não seria a palavra de ordem a multi-funcionalidade ou as multi-especializações?
É difícil se saber, pois estas tendências, mudam a cada edição da Revista Veja.
Eu acho que a última coisa que eu li a respeito, me parece, referia o surgimento no mercado do super-multi-hiper-eu é que sei-sênior.
Este profissional contempla todos os conhecimentos necessários para ser demitido sumariamente, sem o menor rancor, obedecer cegamente todas as ordens, sem contestar, além de possuir um dispositivo de auto-destruição, programável, para o caso de falência da empresa, estando esta segurada contra incêndios e explosões.
O negócio é ser bom em alguma coisa.
Em que você é bom?
Os meus irmãos sabiam desenhar como ninguém.
Eu, não tinha o menor talento para o desenho e eles não tinham o menor talento para auxiliar um aprendiz de artista.
Eu só sabia desenhar a lua. Era só um círculo, sem nada dentro. Não era o sol, porque eu tinha preguiça de fazer os riscos dos raios.
A lua era mais rápida de fazer.
Por causa disso, levei muito tapa nos olhos, deles, o que só reforçava a minha predileção por esse desenho, pois, acabava só vendo círculos na minha frente.
Era o meu orgulho, a lua que eu desenhava.
Aqui para nós, eu nunca consegui desenhar um círculo perfeito, inclusive, muitas vezes parecia um triângulo, mas resolvia esses contratempos, desenhando uma nuvem na parte torta do desenho.
De tanto desenhar nuvens encobrindo a lua, acabei num consultório psiquiátrico infantil, explicando o porquê de eu ser tão “deprimido”, pois fazia referência a nuvens negras em tudo o que eu desenhava.
O tratamento foi muito positivo, pois passei a desenhar coisas bem mais interessantes, do que luas com nuvens na frente, tais como: mendigos, cadáveres, tanques de guerra e partindo para o abstracionismo, passei a desenhar políticos honestos.
Acabei desistindo do desenho e o resultado é que não saio mais em noites de lua cheia e tempo nublado, isso porque, basta eu ver nuvens tapando a lua, que eu já me deprimo.
Sérgio Lisboa.

EPOCLER



Há uns anos, era vendido nas farmácias, um remédio, que vinha em pequenos frascos, em dose única, chamado Epocler (era pronunciado com “e” aberto no final: clér).
Este remédio era indicado, segundo os anunciantes, como auxiliar na má digestão e nos excessos gastronômicos e etílicos, ou seja, desembrulhava o estômago e era bom para a ressaca, sendo amplamente comercializado em todo o país.
O povo adorava o Epocler, cujas propriedades curativas, segundo boatos, já alcançava até reumatismos e câncer de próstata (esse, se estivesse no estágio inicial, é lógico!).
Já havia até crianças batizadas com esse nome, bem sonoro, por sinal: Epocler.
Lindo, não? “Epocler! Vai chamar a tua irmã, a Novalgina!”
Foi uma época mais feliz do que muitas. Inflação lá em cima, instabilidade geral e o povo mandando ver no Epocler, para agüentar tudo isso.
Já teve até quem gritasse um dia: - “Epocler para presidente!”
Não sei se por causa disto, mas para a surpresa de todos, um dia o governo anunciou que tiraria de circulação o remédio Epocler, pois havia sido provado que o mesmo não passava de um suco barato e que não atendia os requisitos curativos a que se destinava.
Meu Deus do céu!
O que se viu naqueles dias, foi a mais tresloucada corrida das pessoas às farmácias, para comprar todo o estoque que ainda restava nas prateleiras, antes do mesmo ser recolhido.
O câmbio, naquele dia de crash da bolsa de inversão de valores, chegou a duas carteiras de cigarro para cada dose de Epocler.
Foram dias de glória para o Epocler.
Contrariando todas as evidências científicas e todos os padrões de razoabilidade, as pessoas querem acreditar, talvez porque, tudo o que elas possuem seja de fato a sua fé, a sua esperança naquilo que vêem como certo, do mesmo modo em que a filha, contrariando todos os apelos de amigas, irmãs, mãe, pai, avô, avó, cachorro e até da família do próprio, se casa com o maníaco do Parque.
O dono da igreja “Deus Tá No Teu Bico”, quando desmascarado, filmado, gravado, periciado, autopsiado, dizendo que criou aquela seita para fazer dinheiro em cima de alguns ingênuos, e em função disso, comemora-se, que pelo menos aquela seita se desintegre e desapareça, os seguidores alegam que estão sendo atacados por satã, que quer desviá-los do caminho certo e que, com o líder ou sem ele, eles vão levar adiante a pregação.
Tem coisas que são imponderáveis, mas pelo menos, fica mais fácil entender o porquê do fascínio pelo Epocler, pois em caso de um mau casamento, uma escolha religiosa errada ou o convívio diário com as mazelas que nos cercam, é preciso ter sempre, à disposição, um bom remédio para o estômago e para ressaca do dia seguinte, do resto de nossas vidas.
Sérgio Lisboa.

Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

OUVIR OS SINAIS

Tem um filme com o Steve Martin, em que ele, na iminência de se casar com uma mulher totalmente sem escrúpulos, pergunta para o quadro da sua esposa, já falecida, se ela tem algo contra esse casamento e, se tiver, que mande algum sinal, qualquer que seja.
Desabam as paredes, cai o teto e ele, calmamente diz: - “Ainda espero algum sinal”.
Muito já se falou sobre os mistérios da vida e já se misturou todas as divisões da ciência com todas as divisões da religião, para tentar explicar sonhos, telepatia, telecinese, aparições, poltergeist, etc.
Eu acredito em sinais. Não vão pensar que sou um matemático obcecado por aritmética.
Eu disse que acredito em sinais sobre as coisas que estão acontecendo e que poderão acontecer.
Vocês nunca perceberam, quando vão procurar alguma coisa, e essa coisa é para uma boa causa, o destino ou alguma força externa, te auxiliam, como que te direcionando para o lugar certo?
Basta prestar atenção: as gavetas onde será inútil procurar, emperram, como se estivessem dizendo “não é aqui”, portas, a mesma coisa, sempre trancam, se ali não é o lugar procurado.
Só que isso não deve ser usado como desculpa para não arrumar mais as gavetas e as portas, pois também pode não ser sinal algum, e ser só um relaxamento doméstico e falta de um carpinteiro.
Outra coisa muito importante é que não adianta nada você ser um iluminado e receber sinais em maior número do que acessos a sites pornôs, e ter problemas de interpretação de texto, não conseguindo decifrá-los adequadamente ou o que é pior, entendê-lo de forma equivocada, gerando o que se chama no esoterismo de sinal com problemas de decodificação (é diferente do que acontece com a tv a cabo).
Muitas vezes, eu recebia vários sinais, dos meus credores, principalmente, só não os entendia, na sua essência, mas eu acho que é só por falta de uma sintonia mais fina com o universo.


Teve um dia em que eu recebi um sinal de que minha mulher me traía e aquilo machucava minha cabeça, como se algo tivesse brotando da testa, e me deixei levar por essa sensação, esperando uma luz, que esclarecesse esses sintomas.
Até que, finalmente veio uma explicação divina para o que eu sentia: não era nada daquilo que eu pensava, e sim, é que ela estava projetando em outros homens a minha imagem, em função de um desequilíbrio cósmico, proveniente de uma não-aceitação de traumas intricados de vidas passadas (pelo menos foi a explicação que a luz me deu, em frases de neon).
Desde então, eu durmo com a luz apagada.
A partir daí, passei a não mais me preocupar e sequer olhar para sinais e minha vida voltou ao normal.
A única coisa estranha que começou acontecer, é que o cosmo passou a me enviar várias multas de trânsito.
Sérgio Lisboa.

Sábado, 9 de Fevereiro de 2008

CRÔNICAS COM FUNDO MUSICAL



Quase sempre, quando estou escrevendo, aproveito para escutar alguma música no próprio computador.
A música é inspiradora para qualquer atividade (torturadores ouviam música durante suas sessões) e, principalmente para quem escreve.
O meu computador tem uma seleção de quase trezentas músicas, com uma diversidade estonteante. Tem de Beethoven a MC Doca.
Esse ecletismo é uma questão pessoal, de variar os mais diversos sabores musicais, contrapondo várias pessoas que só ouvem jazz, ou só rock, ou só sertanejo, ou só funk (meu Deus do céu!).
Tem gente que diz que tem um gosto musical muito variado, que vai desde Chitãozinho e Xororó a Zezé Di Camargo e Luciano.
Então comecei a reparar que a trilha sonora estava influenciando o rumo das minhas crônicas, e essa mistura muito diversificada do meu selecionador musical, foi criando verdadeiros monstros verborrágicos.
O resultado final foi um verdadeiro desastre, pois acabaram mudando todo o sentido dos pensamentos.
Estou neste momento, entrando em contato com os leitores, para um “recall”, pedindo que eles troquem aqueles textos, que estão com defeitos, por novos, já revisados e com o sentido original.
Eu sei que alguns leitores mais conservadores e que assistem muita televisão, estão relutantes em fazer a troca, uma vez que estão bem satisfeitos com o texto com defeito. Então só peço para deletarem meu nome da autoria.
Os textos que estão sendo chamados para a troca, são “O Governo Que Eu Amo”, cujo título original seria “Suicídio Lento”. Esse defeito de fábrica aconteceu porque eu começava ouvindo Beethoven no início, no meio da crônica já tocava Rebelde e culminando com um Roberto Carlos, no final.
A idéia central passada aos leitores foi:”... que apesar dos erros do governo, compreendi que havia nele a imaturidade política de um adolescente, mas que todas suas ações eram por amor”.
O outro texto que deve ser trocado chama-se “Eu acredito”, e seu título original seria “Preciso de um Pistolão”. Nesse, comecei ouvindo Lenine, seguido por Raul Seixas, mas logo veio Xuxa e as Paquitas (eu mato quem colocou isso na minha seleção), a partir daí nem me lembro mais o que aconteceu.
Era para ser uma abordagem esclarecedora da situação social do país, mas acabou sendo um manifesto em favor da reeleição.

Os outros textos que não foram chamados para troca, não sofreram essas influências malignas musicais e se parecerem um tanto estranhos, não se preocupem: é porque eles são ruins mesmo.
Sérgio Lisboa.

MAC GYVER



Tem vezes que tenho vontade de ser o Mac Gyver.


Lembram dele. Aquele personagem da série de televisão, que resolvia tudo com habilidade e conhecimento científico. Com um fio de cabelo e uma caixa de fósforos, ele explodia uma ponte. Ele mesmo. O Mac Gyver.


Já pensou no que ele não faria com um alicate e um vidro de perfume? Invadia o Iraque (pensando bem, isso já foi feito, mas sem perfume).


Certa vez, com um vidro de pimenta e uma caixa de pregos ele fez uma metralhadora.


A melhor foi aquela em que ele, com um cubo de gelo e um grampeador, fez um ultra-leve. Teve problemas para voar, no início, é verdade, mas depois foi que parecia uma pluma, pelo menos até derreter o cubo de gelo.


Aqui no Brasil também temos os nossos Mac Gyvers. Tem, por exemplo, o cara que consegue só com o ensino fundamental, ser presidente. O que consegue de dentro da cadeia, comandar melhor a empresa criminosa do que se estivesse do lado de fora (acho que esse não é Mac Gyver e sim, o Houdini). Tem o cara que tem isenção de impostos desde a idade média, e publica indignado a lista dos sonegadores. O cara que com uma simples eleição, multiplica por um milhão o seu patrimônio.


Alguns que com apenas uma caneta, acaba com as esperanças de milhões.


Eu gostaria de ser o Mac Gyver, para, mesmo estando amarrado ou algemado, mudar o destino de alguém, só com um sorriso.


Eu gostaria de ser o Mac Gyver, para poder dizer que com uma linha, dá para fazer muita coisa: costurar uma amizade ou ligar para alguém para dizer que a ama.


Vou parar por aqui que isso já está parecendo bichice.


A série de televisão citada se chamava “Profissão Perigo”. Já era uma antevisão do que passariam os brasileiros, convivendo entre a bandidagem fora da lei e a bandidagem dentro da lei.



O Mac Gyver verdadeiro, na época do auge de seu sucesso, esteve no Brasil para a filmagem de mais um episódio da série.


Acostumado a resolver grandes problemas com o mínimo de recursos, ele foi convidado para passar um mês com o salário-mínimo do brasileiro, o que prontamente recusou, dizendo:” and your ass, don’t go anything”? Traduzindo : “Faço coisas impossíveis e que parecem fantasia, mas isso já é forçar a barra”.


Sérgio Lisboa

Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

BAIRRISMO



Se tem uma coisa muito difícil de se fugir é do bairrismo.



Quando se mora no interior, onde as casas são em sítios e não existem bairros, só localidades, então se é, ao invés de bairrista, localista. Se mora em vila é vilista. Se o local da morada é uma comunidade, o cara é comunista (é melhor do que comunidadista).


Inclusive esse termo “minha comunidade”, muito usado por líderes comunitários, é uma reengenharia verbal do comunismo.


O mais comum de se ouvir a respeito do bairrismo, é que ele não é saudável, que é pensamento de gente atrasada e que o moderno é ser cosmopolita.



Todos os maiores gurus do universo, sempre pregaram que devemos nos conhecer primeiro, para depois, saindo de nosso interior, percorrer o mundo, valorizando e agradecendo, sempre, o lugar onde estamos, o nosso corpo, a nossa mente, a nossa alma, a nossa casa, o lugar onde repousamos e até a nossa própria cama.


Indo nessa linha, chego à conclusão que devemos ser bairristas, corporativistas, mentalistas, almistas, casistas, quartistas e camistas.



A não ser que eu tenha um vizinho muito insuportável, e que o seu prestígio me traga inconvenientes, eu prefiro mil vezes que o cara mais famoso do mundo, o campeão mundial, o ator consagrado, o mais querido, o mais importante, more ao lado da minha casa e vou torcer para ele, sempre, se o mesmo estiver próximo de uma nova conquista. Isso valoriza a minha rua, o meu bairro, a minha cidade. Se a presença dele não valorizar tanto quanto eu penso, já serve, pelo menos, como ponto de referência, para as visitas acharem mais facilmente a minha rua.


Mesmo que minha cidade tenha só dois times de futebol e que sejam eternos rivais, só não vou torcer para o time adversário quando ele jogar contra o meu time, nas outras partidas dele, eu quero mais que ganhe, e traga a alegria dele para perto de mim.


Muita gente que está lendo essa crônica deve estar dizendo para si mesmo: “acho besteira ser bairrista”.



Vou propor, então, um teste definitivo para saber se o leitor é ou não bairrista. Responda com sinceridade: se na partida final do campeonato interplanetário, valendo o título do universo, estiverem jogando a seleção da Terra contra a seleção de Marte, você torce para a Terra ou para Marte?


Bairrista!


Sérgio Lisboa.





Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

ARTE MODERNA



Uma vez , quando era mais jovem, tinha na praça central da cidade, uma grande exposição de arte plástica (não pensem que era uma reunião de lançamento de Tuperware), onde os artistas, chamados de experimentais, expunham seus trabalhos.


Tinha ferros retorcidos, parecendo corpos, arames esticados em volta de um pneu, representando o sol, papéis rasgados, tecidos esvoaçantes, madeiras parecendo rostos, lâmpadas velhas criando imagens distorcidas e tudo que era material imaginável a serviço da arte.


Confesso que olhando de perto, cada uma daquelas “obras”, elas pareciam mais uma brincadeira de criança criada com a avó, tal era a forma primária com que elas se apresentavam.


Mas o público compareceu. O público sempre comparece para essas coisas.


Os interessados faziam cara de intelectual, soltando alguns sussurros do tipo “hurummm”, coçavam o queixo, tiravam e colocavam os óculos, levantavam a cabeça e iam para a próxima escultura, parecendo príncipes árabes numa liquidação do Museu do Louvre.


Nesse dia, estavam lá, eu e meu amigo Beto, o Betânea (apelido em homenagem a cantora baiana - dizem que o apelido vem do tempo em que ele teve piolho), justamente num canto da praça em que o lugar da exposição estava vago.


Adivinhem o que se passou por nossas cabeças?


Vamos expor alguma coisa nesse espaço vago. Seria um pecado não aproveitarmos essa chance de mostrarmos nosso talento artístico, ainda mais que o Betânea tinha na família a tradição artística –seu pai pintava quadros (só depois ele me explicou que eram quadros de bicicletas para uma oficina).


Pois bem. Olhamos para os dois lados e começamos a recolher o que estava mais a mão para a nossa “obra-prima”, no caso, um copo plástico de refrigerante escrito “coca-cola” e um maço de cigarros amassado. Foi o que deu.


Tínhamos que ser rápidos, pois o seleto público já estava chegando ao nosso espaço artístico.


Enfiamos o maço de cigarros dentro do copo, com a metade para fora e deixamos o copo em pé ali mesmo.


Paramos os dois, cada um de um lado da “obra”, como eunucos guardando as virgens do palácio, com os braços cruzados, com um olhar sério, mais sério que político em enterro de eleitor que não vota na cidade.


As pessoas olhavam para a “obra”, olhavam para nós e voltavam a olhar para a obra. Alguns riam e outros faziam os mesmos “hurummm” de antes.


E nós ali, firmes, olhar ao longe, como verdadeiros artistas.


A presença do público em nosso espaço foi um sucesso naquele dia.


Alguns deles, quem sabe, até hoje devem estar se perguntando, o que aqueles artistas quiseram dizer com aquela “obra”.


Um copo plástico com a marca de uma multinacional e uma carteira de cigarros, nacional, amassada, como que engolida pela multinacional.


Até hoje eu me pergunto se nós, com aquela brincadeira, não alteramos os destinos das pessoas, de acordo com o entendimento de cada observador para aquela “obra”.


Confesso para vocês, que nunca mais toquei nesse assunto, mas, um daqueles visitantes da obra, estou me lembrando agora, era a cara do Lula.


Sérgio Lisboa.



Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

FILA DE BANCO



Alguém aqui já ficou em fila de banco?


Para mim a última coisa do mundo é ir para uma fila de banco.


Eu quero prestar uma homenagem ao responsável pela idéia do caixa eletrônico, pois dá para sacar, depositar, pagar conta, transferir, sem falar que tem a internet, que teoricamente, facilita ainda mais. Essa eu evito, pois apesar de ter linux, sites seguros, etc. sempre tem alguém que acaba sendo limpo, por um gaiato do outro extremo do país.


Eu nunca fico em fila de banco. Eu me sinto um homem liberto. Paguei minha pena quando era office-boy, e minha profissão era ficar numa fila de banco, numa fila de cartório, numa fila de imobiliária, numa fila de emprego (opa!).


Hoje não, as poucas vezes em que é preciso enfrentar esse verdadeiro inferno, é quando um parente distante me pede “um” emprestado e não trabalha com o mesmo banco que eu e daí, além de mandar um dinheiro, ainda sou obrigado a enfrentar uma fila de banco.


Quem costuma ir ao banco já deve ter reparado nas atitudes das pessoas que estão na fila. Esbravejam, xingam, reclamam, ironizam, acusam o governo, passam na frente dos outros, se jogam no chão, perdem a razão.


E como não é possível trocar seu lugar na fila, a não ser que seja para trás, você é obrigado a ouvir o assunto dos dois de trás ou dos dois da frente, ou dos quatro juntos, durante no mínimo, meia hora. Se o assunto fosse criativo e inteligente, a espera não era tão dolorosa, mas normalmente estão falando de doença, das varizes da tia Maria e das crises de caganeira do vô Arlindo, que não é nada ruim se comparada com o assunto mais comum nessas horas: a dança dos famosos do Faustão. Eu odeio fila de banco.


Fala sério. Se eu fosse responsável pelo departamento de psicologia de alguma empresa, nem perdia meu tempo com aquelas infinidades de testes e entrevistas. Pedia para o candidato me fazer um favor e ir ao banco pagar uma conta de luz.


Seguiria o cara e ficava observando qual seria a sua reação na fila do banco. Se ele não fugisse com o meu dinheiro, já passava pela primeira fase do teste. Se ele não perdesse a cabeça na fila, já passava na segunda fase. Agora, se ele saísse de lá com um sorriso no rosto, reprovava ele na hora e mandava internar.


Quando, finalmente chega-se ao caixa, a gente já está tremendo de medo que vá cair o sistema bem naquela hora, que o caixa diga que fechou, que o formulário que levamos não é o correto, que aquele caixa é só para atendimento prioritário, que não trouxemos a vela da primeira comunhão ou qualquer outra coisa.


Apesar destes receios, me encosto no guichê e nem falo nada. Não é falta de educação, não me entendam mal.


Imagina se todo mundo diz um simples bom dia no início e um muito obrigado na volta para o caixa, que leva 05 segundos cada um. Se o mesmo retribuir com uma resposta e multiplicando esse tempo por 56, que é o número de pessoas na fila, já se passou meia hora, só nessas convenções ridículas.


Portanto ninguém deve falar com o caixa, nem um pio.


Sem falar nos surdos que recebem um bom dia e não escutam, e é preciso repetir o cumprimento e daí passamos o dia na fila.


Finalmente o caixa me olhou, como que percebendo que eu não queria assunto, somente fazer meu depósito, rapidamente pegou minha guia e o dinheiro, começou a digitar, eu feliz como uma criança, quando de repente ouço um grito: “Ninguém se mexe, é um assalto”.


Sérgio Lisboa.

Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

O SUSPEITO É SEMPRE O MARIDO

Já faz um bom tempo em que os casos policiais de maior repercussão na imprensa, onde aparece uma mulher morta misteriosamente, o suspeito número um, o indiciado e o que sempre vai preso é o marido dela.

A maioria dos casos não tem provas materiais, somente uma série de indícios do tipo “ele brigou com ela na lua de mel” ou “ele esqueceu o dia do aniversário dela” ou o mais contundente, o mais indefensável “ele reclamava para ir ao supermercado”. Esse último indício, meu amigo, faz uma junta de advogados largar o teu caso e te deixar com a Defensoria Pública.

A situação está tão preocupante, que o Vaticano já está preparando um pronunciamento oficial para tentar salvar a instituição casamento (já há uma diminuição preocupante do número de casamentos em função deste fenômeno), e quem sabe até criar uma nova doutrina, obrigando que cada casal tenha seu respectivo amante, para servir como bode expiatório para qualquer crime que possa ter um dos casados como suspeito.

A polícia alega que seus inquéritos se baseiam em investigações, depoimentos, experiência e procedimentos científicos e que descobriram uma forma de resolver o caso sem sair da delegacia.

“Nós não temos culpa do cara ter casado com uma “mocréia” e ela aparecer morta, justo no dia que ele resolveu dar uma escapadinha”.

Eu acho que a polícia tem uma cartilha pronta para cada caso, baseado em estatísticas anteriores, que dá uma maior agilidade às resoluções dos casos.

Se o sujeito apareceu morto por afogamento, só pode ser o entregador de água mineral.

Se foi morto com a garganta cortada, foi o barbeiro (mas foi um acidente num atendimento a domicílio).

Se aparece esquartejado, é lógico que foi o açougueiro.

Se foi morto e estuprado, foi o próprio filho para se vingar do fato de ele viver comendo a mãe do menino.

Se morreu enforcado, dá uma olhada se os carnês estão em dia.

Se morreu por parada cardíaca, é a amante gostosa.

A cartilha é longa e dá uma lista enorme.

Eu confesso para vocês que pensei mil vezes antes de escrever esse texto, pois (deus me livre), se acontece algo com a minha mulher, eles ainda vão dizer que eu, além de suspeito, era um sádico que editou o plano diabólico numa crônica.

Se acontecer uma coisa com a minha mulher, façam qualquer coisa para fazer justiça, mas pelo amor de deus, não usem essa cartilha.

Sérgio Lisboa

Sábado, 2 de Fevereiro de 2008

O CAOS É A MELHOR COISA

Uma vez eu ouvi de um político da segunda divisão (era suplente de vereador de um pequeno município), uma definição que eu achei muito interessante. Ele me disse que o político faz de tudo para manter o caos e a bagunça, pois é a melhor coisa do mundo para eles.

Eu fiquei impressionado com aquela afirmação, mas ele nem esperou saber de mim se eu concordava ou se sequer tinha entendido o que ele queria dizer, e continuou a discorrer sua tese.

Ele disse que numa situação em que tudo funciona perfeitamente, não é possível se fazer os famosos “pequenos favores”, a torre de petróleo no quintal, para um político que quer se reeleger.

Se o poder público deixa bem limpa a cidade, ele não pode ir lá na tua rua e limpar especialmente para ti, que pode vir a ser cabo eleitoral dele.

Se o sistema de saúde funciona bem, ele não pode te passar a frente nas filas, porque elas não existem.

O caos e a bagunça, também são parceiros da prestação de contas, uma vez que quanto mais obscuros forem os procedimentos e os registros, mais difíceis ficam as cobranças com relação aos desvios.